O país chato

(Publicado no jornal Meia-Hora, 27/9/2007)

Provavelmente ninguém deu conta, mas a Bélgica não tem governo há quase quatro meses. O interesse da crise resulta de duas coisas: uma, por já ter sido vista (talvez com exagero) como o princípio do fim do país; a outra, por a Bélgica ser o centro da União Europeia, a suprema experiência da pós-nacionalidade. Seria realmente muito irónico que, ao mesmo tempo que a UE se desentranha a criar um espaço político superior às nações, mais duas nações ali aparecessem.

Mas a crise belga vale sobretudo por nos recordar a matéria de que é feita a Europa. Os europeus habituaram-se a ver-se como membros de um belo espaço de harmonia e prosperidade. O que é esquecer toda a História anterior. A Bélgica é um óptimo exemplo: um país caprichoso num mar de caprichos parecidos. Criada recentemente (em 1831), ela é hoje uma espécie de Sildávia (um país inventado na própria Bélgica) democrática e rica, famosa pela cerveja, o chocolate, o mexilhão com batata frita, a batata frita propriamente dita e dois ou três exemplos de cultura popular e eurdita (Tintim ou Magritte), que ninguém sabe serem belgas.

É como se, à medida que sonha cada vez mais alto, a UE estimulasse os instintos mais primitivos dos europeus, e à medida que os estados nacionais tradicionais perdem relevância no enquadramento das comunidades, mais se multiplicassem os pequenos estados. Na Catalunha não há dia em que não se fale do “estado catalão” (e queimam-se fotografias dos reis, os símbolos maiores da Espanha una), enquanto a ETA persiste nas bombas. Na Escócia governam os nacionalistas, prometendo a independência para breve. Bem trabalhada, a Itália facilmente seguiria a mesma estrada. E muitos outros. O mais difícil é aparecer a primeira nação, que logo se inventam centenas.

Um indígena (Jacques Brel) chamou à Bélgica o “país chato” (le plat pays), jogando com as palavras: “chato” porque sem montanhas e “chato” por nada lá acontecer. A verdade é que a Bélgica sempre foi interessante. E agora arrisca-se a sê-lo ainda mais.

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