Les beaux esprits…

Outra coisa que não vale a pena é aquilo de malhar na América. Já não se trata bem de um argumento, de um pensamento, de uma maneira de pensar. Trata-se de um impensado. Vem automaticamente, por instinto, como no cão de Pavlov.

Por exemplo, Daniel Oliveira, o grande paladino da estratégia de “aburguesamento” do “bloco”, não perdeu recentemente a oportunidade de zurzir a América por causa da pena de morte: “um dos piores crimes com que a humanidade convive”, nas suas palavras. Eu também não gosto da pena de morte, mas convém perceber uma coisa sobre a sua aplicação nos EUA. Ela é aplicada num quadro legal tipificado e previsível, e apenas a homicidas (ou cúmplices, como é o caso que o Daniel cita). Antes de um indivíduo ser condenado à morte, é sujeito a procedimentos exaustivos baseados na ideia de que é inocente até a sua culpa ser provada. O processo de prova é complexo, são oferecidas inúmeras garantias e vigora o princípio do “due process”. Em suma, as condições genéricas de um fair trial. Claro que há o erro judicial (aliás, talvez a razão mais forte contra a pena de morte) e várias outras imperfeições, mas a isso nenhum sistema jurídico está imune. Acontece que, quotidianamente, por esse mundo fora, milhares de pessoas são executadas de forma sumária por razões bem menores do que o homicídio (sei lá, o proxenetismo e o tráfico de droga na China, a homossexualidade e o adultério em países islâmicos, isto para não falar de razões políticas). Nunca vejo o Daniel (e restante pessoal) tão excitado como quando se trata de uma execução na América, se acaso mencionam algum desses episódios. Mas pronto, é mesmo assim, não há nada a fazer.

Outro exemplo é Vítor Dias, um grande paladino da estratégia de manutenção do PCP tal como é, que também não perdeu a oportunidade de zurzir na América a propósito de um estudo americano que diz que são 36.5 milhões (ou cerca de 13% da população) os pobres por lá. Claro que há pobres por todo o lado e ninguém se alegra com isso. E eu até me atrevo a sugerir que há menos pobres na América do que na maior parte do mundo. Mas nada disso detém Vítor Dias. Como aliás não detém uma informação interessante que vem no mesmo relatório. Aquele número de pobres é definido a partir de um limiar de pobreza que se cifra em aproximadamente 13.200 dólares anuais por família de duas pessoas. Comparar valores a nível internacional é muito complexo, mas, simplificando imenso, estaremos a falar de qualquer coisa que não andará muito longe dos 1.000 euros, ou 200 contos antigos, por mês. Não invejo um casal que viva só com essa quantia, mas daí a tomar à letra a sua natureza de “pobre” vai um passo grande. Se considerarmos que o mesmo limiar de pobreza colocaria talvez 50% a 60% da população portuguesa abaixo do limiar da pobreza, talvez 20% a 30% da população europeia, e para aí 80% da população da maior parte dos países do mundo; se considerarmos também que a habitação, a alimentação e os combustíveis são mais baratos na América do que na Europa, o quadro ainda se torna mais ambíguo. Claro que os serviços de saúde e educação são mais caros, mas também são cobrados menos impostos para os pagar. Enfim, o Vítor Dias lá pegou na história sem mais considerações. Podia ter sido o Daniel, mas foi o Vítor Dias. Aí está, les beaux esprits

Podia multiplicar este género de episódios até à exaustão. Mas basta mais um. Ainda na sexta-feira passada vinha no Público a história do cantor de protesto Manu Chao, que vai partir à conquista do mercado americano vendendo-lhe (guess what?) canções de protesto contra Bush e a América. Está muito bem, ele que faça o que quiser. Mas gostava de o ver a gorjear canções de protesto, por hipótese, no Irão. Dá-me a impressão de que lhe diziam logo: “mano… tchau”.

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