Abril 24, 2008 by LA
A conversa passava-se na mesa do lado, no café. O homem, em estado de evidente excitação, descrevia à mulher o enredo de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago. No final, incitando ao apoiozinho, pergunta-lhe: “tem power ou não tem?”
Segue-se um breve silêncio incomodado, interrompido pelo homem: “eh pá, outro livro com uma granda power é O Alquimista, do Paulo Coelho”.
Esta conversa é mais esclarecedora do que parece.
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Abril 24, 2008 by LA

Mais uma mortificação francesa: uma exposição fotográfica mostra a vida agradável dos parisienses durante a ocupação nazi (iam ver o Conde de Monte-Cristo ao cinema, por exemplo, como na fotografia). É um daqueles temas que toda a gente conhece mas é suposto calar. Toda a gente sabe das denúncias de judeus e da geral colaboração. Muita gente sabe, até, que Sartre, famoso compagnon comunista, escreveu em jornais colaboracionistas e apresentou duas peças (Les Mouches e Huis Clos) durante a ocupação.
Mas é uma estranha mortificação. Porque a verdade é que, por onde os nazis passaram, não deixaram apenas um rasto de morte, deixaram também um rasto de colaboração. Isto é verdade em toda a Europa central e de leste. Mais interessante ainda, é verdade em Inglaterra, onde ocuparam a ilha de Jersey. Apesar de a partir de Junho de 1940 a Inglaterra ser o único país em guerra com a Alemanha, não foi isso que impediu muitos islanders de colaborar com eles. É por serem tão poucos que há heróis.
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Abril 18, 2008 by LA
(publicado no jornal Meia Hora, 17/4/2008)
Parece que afinal o mundo da economia e da finança não é tão diferente do futebol. Os treinadores costumam queixar-se por passarem, entre uma semana e a outra, de “bestiais a bestas” no coração dos adeptos. É o que está acontecer com Alan Greenspan, o antigo Presidente do Conselho de Governadores do Sistema da Reserva Federal. Ainda há meses ele era o “mago” que conseguia, apenas molhando o dedo e pondo-o ao vento, descobrir a direcção dos mercados, ou ler os números da produtividade nas folhas do chá. Entretanto, terá passado de bestial a besta, pois se antes era o grande artífice do crescimento económico americano, agora passou a maior responsável pela crise económica e financeira.
Dá-me a impressão de que nem uma nem a outra coisas deverão ser exactamente verdadeiras. Por um lado, o sistema económico em que vivemos é feito destes ciclos. Este não é o primeiro ciclo negativo nem será o último. Quando se vêem declarações apocalípticas a propósito da crise vale a pena lembrar os anos 30 ou 70, quando se discutia seriamente sobre se essas não seriam as crises finais do capitalismo, no lugar do qual nasceria o comunismo. Entretanto, o que é feito do comunismo? Nem a prosperidade anterior nem a actual crise dependeram apenas da “magia” de Greenspan. A economia americana mantém virtualidades que certamente voltarão a manifestar-se.
Mas esta crise teve qualquer coisa de especial, como o demonstra a escala de certas operações de salvamento das autoridades monetárias. Coisa que se liga com a quebra de um princípio essencial do dito sistema, o de que os líderes económicos merecem ser premiados pelos riscos que tomam mas devem também sofrer as consequências dos seus erros. Os actuais banqueiros e financeiros, sempre muito machos a explicar aos outros que isto da finança é para homens de barba rija e que toda a gente tem de sofrer as mais diversas desagradáveis consequências, quando chegou a sua vez de sofrer as consequências, começaram logo a correr como meninas histéricas a abrigar-se nas saias do Estado. Queixam-se agora de que vem aí uma nova idade de intervenção estatal paralisadora. É muito provável. Mas quem nos meteu lá dentro não foram os comunistas, os inimigos do capitalismo ou sequer Greenspan. Foram eles próprios.
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Abril 17, 2008 by LA
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Abril 14, 2008 by LA
(Publicado no jornal Meia Hora, 10/4/2008)
Um ano e meio para as eleições afinal não é assim tanto tempo e convém satisfazer toda a gente. Começa-se pelos impostos. O governo baixou o IVA e já prometeu futuras reduções, não especificadas, para o ano. Para além disso, a administração fiscal começou a andar menos acirrada na perseguição às dívidas. Se o objectivo é ganhar eleições, não seria possível continuar na sanha tributária dos últimos dois anos. Acresce que, na actual situação de crise, há quem diga que é isto mesmo que deve ser feito, para “estimular” a economia. Foi o próprio FMI quem o afirmou. Aproximou-se o orçamento do equilíbrio, deu-se um ar de grande competência, e agora solta-se um bocadinho o torniquete, para acalmar a classe média.
Depois, satisfaz-se a esquerda. Não é difícil. Recua-se no fecho de urgências e muda-se um pouco a política de saúde, reabilitando os notáveis méritos do SNS, a pedido de Manuel Alegre. Acrescentam-se umas causas “fracturantes”, como o fim do divórcio litigioso (esse tema candente), e põe-se a esquerda muito entretida a celebrar mais um fantástico avanço civilizacional e outra humilhação para a horrenda Igreja Católica.
A seguir, inaugura-se a época das grandes obras públicas, para satisfazer os “empresários”. Multiplicam-se as pontes, as auto-estradas e as barragens, numa magnífica demonstração da política da betoneira. Bancos e escritórios de advogados também agradecem. Para além de que é igualmente suposto, em princípio, estimular a economia e reduzir o desemprego, como bem sabe qualquer presidente de câmara municipal.
Ou seja, com uma mão dá-se à classe média, com outra à eterna esquerda e com uma terceira aos patrões. Se acrescentarmos umas migalhas oferecidas a intelectuais de direita por via do Ministério da Cultura, temos o cenário montado para uma santa paz no próximo ano e meio. Bingo! Nem nos tempos da União Nacional, da Acção Escolar Vanguarda e do SNI se conseguiu tamanha harmonia. Há a chatice dos professores, é verdade, mas provavelmente daqui para a frente pouco mais se fará. O plano é bom. A oposição é má. Resta saber se será suficiente para reeditar a maioria absoluta. Já esteve mais longe.
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Abril 6, 2008 by LA
Dar muito dinheiro para construir prédios para os pobres. Chamar-lhe engenharia financeira. Dizer que vai correr tudo bem. Quando correr mal, nacionalizar uns bancos.
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Abril 4, 2008 by LA

No Quénia, massais e kalnejins combatem ao arco-e-flecha.
Regras da guerra: os combates não podem decorrer todos os dias, não podem ter lugar à noite e o corpo-a-corpo é proibido. As flechas não podem ser lançadas para ferir, mas apenas para matar. Desde Janeiro, altura do início dos combates, já morreram 20 homens. Os massais reclamam pastagens ocupadas pelos kalnejins, sendo esse o casus belli.
Nos dias em que não se combatem, convivem amenamente uns com os outros.
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Abril 4, 2008 by LA
(publicado no jornal Meia Hora, 3/3/2008)
Em matéria de costumes, dão-se discussões terríveis a propósito de nada ou quase nada. Passou-se com o aborto: quando ele deixou de ser um fenómeno social importante (pelos baixos números envolvidos, resultantes da generalização dos contraceptivos), a esquerda decretou a libertação do país pela sua liberalização e a direita a entrada numa nova idade das trevas. Repete-se agora com o fim do divórcio litigioso, que o PS pretende introduzir. Diz-se que isto satisfaz aqueles mais à esquerda, e que o PS precisa deles. É capaz de ser verdade. Por outro lado, direita e Igreja gritam contra o terrível ataque à instituição do casamento.
Pobre instituição do casamento, onde ela já vai… Cada vez menos gente se casa, e dos que casam cada vez mais se divorciam. A verdade é que o casamento tem hoje pouca utilidade. Outrora, era por ele que duas vidas se juntavam para reunirem recursos, providenciarem assistência mútua e enquadrarem social e moralmente o resultado dessa união: os filhos. Mas isso era no tempo em que, rodeados por um mundo ameaçador, sem um Estado que assistisse nas necessidades, poucas coisas restavam para proteger a não ser os cônjuges e os filhos adultos. O crescimento económico e o Estado-Providência tornaram o casamento e os filhos dispensáveis e até onerosos.
Alberto Martins, líder parlamentar do PS, diz que a proposta realça a “conjugalidade assente nos afectos”. Mas o casamento tradicional pouco tinha que ver com os “afectos”. O que ele gerava era um conjunto de obrigações (morais, mais do que legais) no apoio ao cônjuge contra as dificuldades do mundo. Se, hoje, uma tragédia acontecer a um deles, os “afectos” não garantem assistência, podendo mesmo acabar ali: quem nutre “afecto” por um peso morto que nos calhe em sorte depois de um acidente? Mais vale, muito humanamente, entregá-lo a uma “instituição especializada”.
Numa sociedade em que o Estado substituiu instâncias autónomas como a família, o casamento é uma gracinha descartável. O fim do divórcio litigioso não ameaça a instituição do casamento, porque ela já praticamente não existe. Continuam a existir casamentos, mas pouco têm que ver com a instituição do casamento. O fim do divórcio litigioso apenas facilita a vida a quem não quer chatices.
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Março 31, 2008 by LA
(Publicado no jornal Meia Hora, 27/3/2008)
Os bancos centrais do mundo ocidental continuam a dar sinais de estarem dispostos a usar de quase todos os meios para salvar o sistema financeiro. Não há semana em que não injectem liquidez e até já salvaram explicitamente dois bancos que ameaçavam falência (o Northern Rock, há uns meses, em Inglaterra, e o vetusto Bear Sterns, ainda a semana passada, nos EUA). Estamos aqui naquela dimensão vagamente mística da economia e das finanças em que o fito é devolver “confiança” aos mercados.
O que se passa é mais simples do que parece. A origem do problema está nos empréstimos hipotecários a pessoas de rendimentos baixíssimos feitas por determinadas instituições americanas (o agora célebre mercado “subprime”). Mas a amplificação do problema tem outra raiz. É que, numerosos bancos por esse mundo fora aceitaram as garantias dadas pelas tais instituições como boas, e depois numerosos outros bancos, por sua vez, aceitaram as garantias dadas pelos primeiros como boas, e por aí fora numa espécie de grande cebola de garantias sobre garantias. Ou seja, a recente expansão do sistema financeiro internacional baseou-se na capacidade de pagamento das mais pobres famílias americanas.
Agora, os bancos têm medo de não ver ressarcido o crédito que fizeram confiando nas tais frágeis garantias. E os bancos centrais tomam as vezes daqueles que não conseguem pagar. No entanto, por muito reconfortantes que sejam estas medidas, estamos a falar aqui de acções exemplares. É como se os bancos centrais dissessem: “não se preocupem, não deixaremos ninguém afogado neste mar de dívidas”, embora saibam que não podem garantir a salvação de toda a gente. No fundo, o que esperam é que, ao salvarem um banco, os outros todos confiem que vão ser salvos, mesmo sabendo que isso não é verdade. É a tal dimensão mística: dão um exemplo e depois rezam para que ele tenha sido bem escolhido. Só que há um limite para isto, a menos que queiramos entrar numa espécie de regime inflacionário latino-americano. Até agora, o sistema vem-se aguentando. O problema aparecerá no dia em que o Banco de Inglaterra, o Fed ou o BCE não salvem o primeiro banco. Mais vale rezarmos juntamente com os bancos centrais para não vermos esse dia chegar.
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