(Publicado no jornal Metro, 9/6/2011)
Graças às ameaças do “empate técnico” ou da “ligeira vitória do PSD” pelas sondagens, a opinião “respeitável” portuguesa alimentou, antes e durante a campanha, a ideia da necessidade de “consensos”. A sua solução predilecta é o Bloco Central (de preferência com o CDS). O resultado das eleições tornou os “consensos” e o Bloco Central desnecessários. O PSD teve uma das maiores vitórias de sempre (só as de Cavaco e Barroso foram maiores), o PS uma das maiores derrotas de sempre (só as de 1985 e 1987 foram piores). No seu conjunto, excepto com Cavaco, a direita nunca teve votação semelhante (mais de 50%, com quase 60% dos deputados), e a esquerda nunca teve pior.
O que não impediu as vozes explicando que a direita não tem “maioria social” para governar. Como se mais de 50% dos adultos portugueses não fossem, para além de uma maioria política, uma maioria social também. Por outro lado, o PS já ligou o modo “resistência anti-fascista”, juntando-se ao PCP e do BE para combater o regresso da besta negra.
Ao contrário do que seria de esperar depois do resultado das eleições, é provável que o PSD não seja indiferente a estas intimações e acabe por optar pelo “estabelecimento de pontes” (como se diz) com o PS, supostamente para melhor “implementar as medidas difíceis” que se avizinham. No entanto, o resultado das eleições seria um convite para o contrário: para que o PSD (com o CDS) mostrasse(m) aquilo que disseram ser capazes de fazer: um projecto mudando a maneira como se fornecem os serviços do Estado Social (que, ao contrário da lenda construída na campanha, eles não querem destruir). Mas sendo a cultura política portuguesa o que é, muito provavelmente o PSD vai optar por impedir-se a si próprio de mostrar o que vale esse projecto, voltando ao quentinho dos chamados “acordos de regime” que não mudam nada. Não sabemos se isto é bom ou mau (porque também não sabemos o que resultaria do plano do PSD), mas não foi para isso que os portugueses votaram como votaram.