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O Estado de direito

Novembro 10, 2009

Gosto muito quando tanta gente de tantos quadrantes políticos revela o seu incontrolado arrebatamento pelo Estado de direito. E gosto ainda mais quando aparecem novos guardiões, novos heróis do Estado de direito. Também foi para isto que se fez o 25 de Abril.

Fins

Novembro 10, 2009

Pois é Miguel, é muito interessante: já ninguém se deve lembrar, mas o marxismo, como extensão do idealismo e dialética hegelianos, e o comunismo, como regime marxista, é que eram o fim da História. Aqueles que, quando a História não corre da maneira que queriam, se erguem logo a explicar que a História não acabou, lembram-me os tipos que, depois de levarem um murro na cara, continuam a gritar pela rua fora: “isto não fica assim!” É verdade que o Fukuyama veio depois escrever aquele livro sobre o fim do comunismo e o fim da História. Mas por um lado tratava-se de típica provocação intelectual. Do género: então, afinal como é que acabou esta História? Por outro, tratava-se de constatar o que dizes: se o regime que era o fim da História tinha ele próprio chegado ao fim, então a História (aquela História) tinha mesmo chegado ao fim.

Soltem o muro

Novembro 9, 2009

Tenho-me divertido imenso e, sobretudo, tenho de confessar uma coisa que parece que é incrível: em 1989 já era adulto, não era comunista e estava onde mais ou menos estou (enfim, talvez tivesse vergonha de dizer que não era de esquerda). A coisa diverte porque já vi de tudo (pelo menos pelo que eles dizem): confessos comunistas actuais que celebraram a queda do muro à época, comunistas da época que celebraram a queda do muro à época e, finalmente, os que desconversam (que incluem muitos dos anteriores), falando de “outros muros”. O que era o muro de Berlim comparado com o da fronteira entre os EUA e o México, o da fronteira entre Israel e a Palestina e o da fronteira entre “ricos e pobres”? Isto para não falar do “muro da Guerra do Iraque”, que já vi comparado com o gulag. Não existe muro da Guerra do Iraque? Não faz mal, arranja-se sempre mais um e a comparação já ouvi mesmo. A Rita Rato não sabe o que foi o gulag? Mas conhece estes muros todos de certeza.

Como diria Manuel Alegre: não foi para isto que caiu o muro de Berlim.

Ah, a renovação

Novembro 9, 2009

Da democracia na América

Novembro 9, 2009

O Plano de Saúde passou na Câmara dos Representantes, mas ainda tem de passar pelos fascistas da Câmara Corporativa, desculpem, do Senado. E parece que não passa:  The glow from a health care triumph faded quickly for President Barack Obama on Sunday as Democrats realized the bill they fought so hard to pass in the House has nowhere to go in the Senate. Na América, a terra dos estúpidos, vão continuar a morrer pessoas à porta dos hospitais.

O campeonato

Novembro 8, 2009

A continuar assim, o Sporting está, não tarda, a lutar com toda a tranquilidade pelo campeonato. O campeonato da permanência.

Parabéns

Novembro 8, 2009

Também foi para isto que se fez a maioria de esquerda em Lisboa. Não podia haver pior do que uma câmara de Lisboa às ordens de um governo com ideias loucas para a cidade. E não se vai ficar por aqui. Parabéns à esquerda exultante por ter derrotado Santana.

Jovens e inocentes

Novembro 8, 2009

Lembro-me do tempo em que se discutia seriamente a corrupção do país pelo futebol. Maria José Morgado arengava contra a actividade, explicando que era genericamente constituída por malfeitores,  o que não lhe custaria provar.  O típico intelectual luso concordava e tinha Morgado numa excelente conta. Sempre me pareceu que havia mais preconceito do que realidade nesta condenação genérica de uma actividade (enfim, as pessoas do futebol são pessoas que não sabem falar), absolvendo tudo o resto que a rodeava, da política às empresas. Hoje sabemos mais. Por exemplo, soubemos ontem que Sócrates e Vara andaram a estudar maneiras de salvar o “amigo Joaquim”, cuja empresa de comunicação enfrenta dificuldades. E alguém nos lembrou que o “amigo Joaquim” quis ajudar a pôr Vara na presidência do Benfica.  Pois é. Já fomos jovens e inocentes.

O país com paredes de vidro

Novembro 6, 2009

Em 1988, fui à União Soviética. Vivia-se a era da Glasnost (ou transparência, se não me engano). Para além da geral tristeza do sítio, espantou-me o facto de os jornais estarem cheios de denúncias de corrupção. Mais, vivi imerso na corrupção do sistema durante as duas semanas que lá estive: desde a troca de rublos por dólares no mercado negro, oferecida no átrio do hotel, à venda de caviar ao preço da uva mijona desde que pago em dólares, à oferta de prostituição (pela mesma pessoa que me tinha tentado vender o caviar), desde que paga em dólares, ao táxi que levava 7 pessoas desde que lhe pagássemos em dólares, tudo se fazia fora dos mecanismos legais. Três anos depois, o país e o regime já não existiam.

Serve isto para dizer três coisinhas: nestas histórias de corrupção, não vale a pena denunciar a ganância ou o capitalismo selvagem. O comunismo selvagem era pior: tinha tanta ganância como cá, tinha mais corrupção e ainda tinha mais pobreza e campos de concentração.

A outra coisa é que a corrupção aumenta na proporção dos obstáculos legais que são postos às mais inócuas actividades económicas: se para abrir um café era preciso que ele estivesse de acordo com o Plano Quinquenal, então nada se podia fazer.

É por isso que são idiotas as denúncias selectivas do cavaquismo que se andaram por aí a fazer, como aqui disse. Isso só se explica pelo ressabiamento político de quem se sentiu humilhado pelas derrotas na altura e nunca percebeu o que, à época, representou o cavaquismo. Como será idiota denunciar selectivamente o guterrismo, coisa que não quis fazer aqui. O problema não está na corte de cavaquistas (e não me refiro, obviamente, à corte do Tiago) nem de guterristas. O problema é outro.

A continuação da política por outros meios

Novembro 6, 2009

(Publicado no jornal Metro, 5/11/2009)

Mais um episódio da transformação da Justiça na continuação da política por outros meios. Ou talvez esteja tudo tão invertido que seja ao contrário: a política é que é a continuação da Justiça por outros meios. De facto, a política portuguesa está transformada numa cornucópia de “casos”, que vão do sexo à aparente troca duns tustos para favorecer um sucateiro. A principal característica desta transformação é que a política deixou de ser a actividade da discussão de ideias ou programas. Por definição, é impossível discutir seriamente eventos cujo perfeito conhecimento está na posse de apenas alguns: juízes, advogados e arguidos. Que dizer sobre o caso “Face Oculta” antes de alguém ter sido condenado? Nada, pois é matéria para apuramento judicial. No meio disto, aqueles que vão adiantando uma ideia ou outra para discutir passam por líricos. E passam muito bem, pois é o que efectivamente são.

Na verdade, chegámos à impossibilidade de fazer política. Qualquer governo ou partido que se lembre de adiantar uma medida consequente arrisca-se a ver um dos seus enterrado em lama nas páginas dos jornais, se necessário no espaço de 24 horas. Claro que isto só acontece porque muita gente se disponibilizou a enterrar-se em lama e, portanto, é sempre possível fazer saltar mais um caso quando convém. Neste momento, nenhum talento especial é necessário. Preciso é ter uns contactos no Ministério Público, nos jornais e nos escritórios de advogados. Neste momento, o grau de compromisso de muita gente na política com actividades pouco abonatórias leva a pensar que só substituindo quem por lá anda por gente inteiramente nova, que ainda não foi corrompida, poderia restaurar alguma sanidade no sistema. Enquanto assim não for, mais centro comercial menos centro comercial, mais escutas menos escutas, mais submarino menos submarino, mais sucata menos sucata, a política está transformada numa actividade sem interesse ou graça absolutamente nenhuns.