
Levantei num aeroporto chamado JFK, aterrei noutro chamado Reagan, para chegar a um cidade chamada Washington. Presumo que seja isto o peso da Historia.

Levantei num aeroporto chamado JFK, aterrei noutro chamado Reagan, para chegar a um cidade chamada Washington. Presumo que seja isto o peso da Historia.
(Publicado no jornal Meia Hora, 15/5/2008)
Para uma sociedade laica, acreditamos muito em apocalipses. Não há dia em que não apareça alguém a anunciar o fim do mundo. É o caso famoso do apocalipse ambiental. E agora é o apocalipse da fome. Até há uns meses, havia comida para toda a gente. De repente, deixou de haver, os preços sobem e logo se chegaram à frente inúmeros profetas explicando que a culpa era do nosso modo de vida (capitalismo, urbanização, industrialização, aquecimento global, os culpados do costume).
Como é que no espaço de meses se passou da abundância para a mais extraordinária escassez talvez fosse algo a explicar. Mas não parece haver muita gente interessada em fazê-lo. A coincidência com a crise financeira merece ser sublinhada. A especulação com os preços dos produtos alimentares tem-se oferecido como o refúgio de instituições financeiras a braços com a desvalorização dos seus activos imobiliários. Cá está o ponto em que os amigos do mercado se voltam a sentir embaraçados com o comportamento destas instituições. Depois da bolha imobiliária, ei-las apostadas na bolha alimentar. É triste, porque muito disto não tem que ver com o mercado. Ou tem, mas apenas na medida em que a sua função disciplinadora não funcionou na bolha imobiliária. Quando ela rebentou, as autoridades monetárias das principais áreas económicas vieram a correr salvá-las. Tratou-se de um prémio à imprudência, que elas agora estão a repetir com a comida. Quando a oferta alimentar for superabundante, a bolha rebentará, os preços vão cair e todos aqueles empresários e agricultores que investiram na agricultura apostando na continuação dos preços altos confrontar-se-ão com a falência. Entretanto, os bancos centrais virão outra vez salvar as instituições financeiras, sob pretexto de serem demasiado importantes para fecharem. É a perpetuação da impunidade.
A falência de alguns imprudentes não faria mal nenhum ao sistema financeiro. Se a preocupação das autoridades é com as pessoas comuns, então em vez de subsidiar os bancos em dificuldades de forma indiscriminada, haveria outras maneiras de ressarcir os depositantes, as quais premiassem as instituições prudentes e castigassem as imprudentes. Assim, não há razão para ter cuidado. O papá Estado lá estará para salvar.
(Publicado no jornal Meia Hora, 8/5/2008)
Tal como a Revolução Francesa, Maio de 68 é um daqueles acontecimentos tipicamente franceses que a França apresenta como o acontecimento mais importante da História da humanidade. A Revolução Francesa foi a última das três grandes revoluções “liberais” (depois da inglesa e da americana); Maio de 68 apareceu no final de duas décadas de profundas transformações. A Revolução Francesa (em nome da libertação da humanidade) engendrou o terror jacobino e o império de Napoleão; Maio de 68 identificou-se com algumas das mais autoritárias soluções políticas (como o maoísmo e outros derivados comunistas). Tal como na Revolução Francesa, os franceses não fizeram o que julgaram estar a fazer.
As coisas verdadeiramente importantes desses tempos deveram menos àquelas semanas de tumulto do que aos contributos do crescimento económico capitalista (que trouxe uma prosperidade jamais antes vista), da indústria farmacêutica (que trouxe a pílula) ou da indústria discográfica (que trouxe Elvis, os Beatles, os Rolling Stones ou Bob Dylan). Graças a tudo isto, o modo de vida da juventude estava em plena mutação. De resto, Maio de 68 introduziu neste quadro uma dimensão política que apenas confundiu as coisas. Enquanto as mudanças sociais e culturais podiam perfeitamente ser acomodadas pela sociedade burguesa (como aliás foram), o que eles recusavam era a sociedade ocidental no seu todo. Muitas vezes em nome de nada (o que politicamente também significava nada), outras vezes em nome de soluções políticas repugnantes.
A verdade é que o capitalismo adoptou perfeitamente estes seus filhos então rebeldes. Passaram 40 anos e, hoje, são eles os burgueses instalados. Muitos governam-nos, outros lideram empresas, outros vivem uma pacata vida próspera. As suas causas tornaram-se as causas convencionais de hoje. É isso que explica que o nosso jornal diário de referência trouxesse no outro dia um longo suplemento de celebração beata do evento. E é isso que explica que Cohn-Bendit, lucidamente, peça para esquecer Maio de 68. Porque, diz ele, “ganhámos”. É por terem ganho que as comemorações têm um ar tão estafado de efeméride oficial. Eles julgaram estar a abolir o capitalismo. Afinal, estavam só a criar uma sua nova encarnação. Mas não o perceberam à época. Será que hoje já o perceberam?

Sob o passeio, a Nossa Senhora?

O jogo de futebol da liberdade: Tibet x Padânia.

Sempre ouvi dizer que a Guerra do Iraque era por causa do petróleo: será que é mesmo verdade?
(Publicado no jornal Meia Hora, 24/4/2008)
Afinal, talvez o mundo tenha subvalorizado Luís Filipe Menezes. Até quinta-feira passada ele era o bombo em quem toda a gente gostava de dar a sua pancadinha. De repente, provocou um verdadeiro terramoto político. Foi muito interessante constatar o pânico que encheu certas almas no seu próprio partido. Sem o saco de encher pancada, ficaram subitamente desprovidos de objectivo. Até quinta-feira, ele era uma espécie de usurpador que não merecia o lugar. Estava na hora de se ir embora. Quando se foi embora, cumprindo os desejos das ditas almas, passou a ser aquele que partiu de forma irresponsável.
Eis algo que não acontece por acaso. Até então, Menezes era acusado de tudo: de ser inconstante, de não ter programa, de defender isto e o seu contrário no espaço de 24 horas. Em suma, de ser vazio. A ideia implícita nestas acusações era a de que eles, os acusadores, sim, tinham programa. Mas quando Menezes se foi embora verificou-se que também eles eram vazios e que a única coisa que os enchia era encherem Menezes. Na realidade, com o seu gesto, Menezes confirmou o seu vazio, mas também revelou o dos outros. Já lá vai uma semana e ainda está para se ouvir uma ideia válida da parte daqueles que tanto o zurziram. E não é por falta de candidatos, que de um dia para o outro apareceram como cogumelos.
No PSD abunda o manobrismo e a remoção de tapetes. Falta é o trabalho que permita apresentar um programa político consistente. Esse trabalho não se faz andando por aí a bofetear o Menezes do dia mas antes estudando propostas. E há tanto por onde pegar: desde a reforma da despesa pública à reforma da segurança social, passando pela da fiscalidade e da administração pública, sem esquecer algumas ideias que ajudem a economia a sair da última década de marasmo, e muitas outras coisas que o espaço aqui não permite enumerar. Não admira que muitos votantes do PSD prefiram o PS de Sócrates. Pelo menos é o que as sondagens mostram: o PS mantém-se em torno dos 40%, enquanto a esquerda cresce (ou seja, foge do PS), chegando hoje aos 20% de votos. Só há um sítio onde o PS os pode ter ido buscar: ao PSD. Como as coisas se apresentam, é provável que assim continue a ser.

Em Inglaterra fazem-se museus sobre Roald Dahl. Em Portugal montam-se exposições sobre Saramago. Não comento.