Pois é. Aliás, por muito menos (nem sequer havia suspeitas de ilegalidades), um Presidente de esquerda demitiu um Governo PSD/CDS. E como não andava a esquerda (toda) excitada, “exigindo” ao Presidente que acabasse com aquilo. Mas nem sequer é preciso ir tão longe: ainda aqui há uns meses, lá andava a esquerda a “exigir” a Cavaco que demitisse Dias Loureiro. Vejo-os todos (mas todos) muito calmos – a propósito, que é feito dos justiceiros do Bloco de Esquerda, tão intrépidos a denunciar Dias Loureiro ou até o desgraçado Fernando Lima? Gosto imenso quando estes fuziladores sumários de repente aparecem como mansos “formalistas”. Aliás, de repente, os “formalistas” parecem cogumelos. Mas não deixa de ter graça que só sejam “formalistas” para uma interpretação da lei. Quando a interpretação é diferente, parece que já não gostam. Ah, como comove o amor às “formas”.
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Pois…
Novembro 11, 2009Como se eu fosse muito burro
Novembro 11, 2009Não me apetece particularmente discutir questões judiciais. Em teoria elas só são claras quando há condenados. Acresce que a Justiça já perdeu qualquer inocência. Na verdade, já ninguém anda a falar de justiça, e nem sequer anda a falar de política. Anda a falar de um monte de tipos embrulhados numa luta de lama. Mas gostava de perceber uma coisa: quando se descobrem acidentalmente indícios conducentes a uma suspeita, como se pode iniciar uma investigação?
Para dar um exemplo estritamente hipotético: imaginemos que o vice-presidente do segundo maior banco de um país está a ser investigado por favores ilegais a um empresário de resíduos industriais. No prosseguimento da investigação, descobrem-se indícios de que o primeiro-ministro do país teria tentado que o vice-presidente levasse o banco a subsidiar (pelo perdão de dívidas e outras coisas do tipo) um grupo de comunicação social em dificuldades financeiras, grupo esse conhecido por ser bastante simpático para com o primeiro-ministro, tendo mesmo até tido intervenção determinante em eleições recentes. Não há matéria para iniciar uma investigação? Julgo que o crime aqui exemplificado se chama tráfico de influências, e colocaria muito em causa: a concepção de exercício do poder do primeiro-ministro, a política de colocação de administradores em bancos privados com participação do Estado, os fins para que são colocados esses administradores e, finalmente, a independência da comunicação social privada face ao governo. Eu sei que tudo isto é meramente hipotético, mas não há matéria para iniciar uma investigação?
Entretanto, e ainda no domínio das hipóteses, imaginemos que, por portas travessas, os indícios se tornavam públicos e toda a gente passasse a saber. Toda a gente sabe e não se pode iniciar uma investigação? Quem descobriu os indícios não a pode iniciar, porque os indícios são considerados nulos. Mas existem. E toda a gente sabe. A coisa fica assim? Gostava que me explicassem como se eu fosse muito burro.
E claro que tudo isto tem relevância política: a ser tudo verdade, sabe-se que o governo desse país usa meios extra-legais para obter vantagens políticas; sabe-se que um dos maiores jornais desse país na verdade não é independente do governo, o que até vai contra o princípio de concorrência – afinal, um grupo de comunicação social privado será salvo pelo Estado, se oportuno; os outros jornais não deveriam ficar contentes com isto; sabe-se que as decisões empresariais dos bancos podem ser tomadas para favorecer caprichos do governo – sendo cliente de bancos, a população gostaria certamente de saber onde o dinheiro que lá deposita está a ser utilizado. E se o banco for à falência?
Enfim, mas tudo isto são fantasias de quem não tem mais nada que fazer.
O Estado de direito
Novembro 10, 2009Gosto muito quando tanta gente de tantos quadrantes políticos revela o seu incontrolado arrebatamento pelo Estado de direito. E gosto ainda mais quando aparecem novos guardiões, novos heróis do Estado de direito. Também foi para isto que se fez o 25 de Abril.
Fins
Novembro 10, 2009Pois é Miguel, é muito interessante: já ninguém se deve lembrar, mas o marxismo, como extensão do idealismo e dialética hegelianos, e o comunismo, como regime marxista, é que eram o fim da História. Aqueles que, quando a História não corre da maneira que queriam, se erguem logo a explicar que a História não acabou, lembram-me os tipos que, depois de levarem um murro na cara, continuam a gritar pela rua fora: “isto não fica assim!” É verdade que o Fukuyama veio depois escrever aquele livro sobre o fim do comunismo e o fim da História. Mas por um lado tratava-se de típica provocação intelectual. Do género: então, afinal como é que acabou esta História? Por outro, tratava-se de constatar o que dizes: se o regime que era o fim da História tinha ele próprio chegado ao fim, então a História (aquela História) tinha mesmo chegado ao fim.
Soltem o muro
Novembro 9, 2009Tenho-me divertido imenso e, sobretudo, tenho de confessar uma coisa que parece que é incrível: em 1989 já era adulto, não era comunista e estava onde mais ou menos estou (enfim, talvez tivesse vergonha de dizer que não era de esquerda). A coisa diverte porque já vi de tudo (pelo menos pelo que eles dizem): confessos comunistas actuais que celebraram a queda do muro à época, comunistas da época que celebraram a queda do muro à época e, finalmente, os que desconversam (que incluem muitos dos anteriores), falando de “outros muros”. O que era o muro de Berlim comparado com o da fronteira entre os EUA e o México, o da fronteira entre Israel e a Palestina e o da fronteira entre “ricos e pobres”? Isto para não falar do “muro da Guerra do Iraque”, que já vi comparado com o gulag. Não existe muro da Guerra do Iraque? Não faz mal, arranja-se sempre mais um e a comparação já ouvi mesmo. A Rita Rato não sabe o que foi o gulag? Mas conhece estes muros todos de certeza.
Como diria Manuel Alegre: não foi para isto que caiu o muro de Berlim.
Ah, a renovação
Novembro 9, 2009(Via ABC)
Deve ser isto a renovação do PSD: Martins da Cruz apoia Passos Coelho.
Gosto especialmente de algumas passagens. Diz, por exemplo, o jovem Martins da Cruz:
[Sobre se a cisão no PSD é ideológica:] Qual ideologia? Eu nunca lá vi nenhuma. O PSD não é um partido ideológico, ao contrário do PS.
Mas talvez valha a pena ler a peça toda.
Da democracia na América
Novembro 9, 2009O Plano de Saúde passou na Câmara dos Representantes, mas ainda tem de passar pelos fascistas da Câmara Corporativa, desculpem, do Senado. E parece que não passa: The glow from a health care triumph faded quickly for President Barack Obama on Sunday as Democrats realized the bill they fought so hard to pass in the House has nowhere to go in the Senate. Na América, a terra dos estúpidos, vão continuar a morrer pessoas à porta dos hospitais.
O campeonato
Novembro 8, 2009A continuar assim, o Sporting está, não tarda, a lutar com toda a tranquilidade pelo campeonato. O campeonato da permanência.
Parabéns
Novembro 8, 2009
Também foi para isto que se fez a maioria de esquerda em Lisboa. Não podia haver pior do que uma câmara de Lisboa às ordens de um governo com ideias loucas para a cidade. E não se vai ficar por aqui. Parabéns à esquerda exultante por ter derrotado Santana.
Jovens e inocentes
Novembro 8, 2009Lembro-me do tempo em que se discutia seriamente a corrupção do país pelo futebol. Maria José Morgado arengava contra a actividade, explicando que era genericamente constituída por malfeitores, o que não lhe custaria provar. O típico intelectual luso concordava e tinha Morgado numa excelente conta. Sempre me pareceu que havia mais preconceito do que realidade nesta condenação genérica de uma actividade (enfim, as pessoas do futebol são pessoas que não sabem falar), absolvendo tudo o resto que a rodeava, da política às empresas. Hoje sabemos mais. Por exemplo, soubemos ontem que Sócrates e Vara andaram a estudar maneiras de salvar o “amigo Joaquim”, cuja empresa de comunicação enfrenta dificuldades. E alguém nos lembrou que o “amigo Joaquim” quis ajudar a pôr Vara na presidência do Benfica. Pois é. Já fomos jovens e inocentes.