(Publicado no jornal Metro, 14/7/2011)
Desde os mundiais de futebol que não se via tal onda de patriotismo. Só faltou o professor Marcelo pedir que pendurássemos uma bandeirinha nacional à janela. A responsável, já se sabe, foi a agência de notação Moody’s e a sua reclassificação da dívida pública portuguesa. Mas foi um estranho patriotismo. Um patriotismo europeísta. Toda a gente apelou para que a “Europa tocasse a rebate” e “acordasse”. O professor Marcelo certamente pediria a bandeira europeia ao lado da portuguesa. Aliás, a Europa também viveu o seu “momento mundial” e descobriu imensas intrigas financeiras internacionais perpetradas pelos americanos. Talvez em Bruxelas se tenham também pendurado bandeiras.
E pronto. Com estes arrebatamentos esqueceram-se logo três pequenas coisas (entre muitas) que com certeza pesaram na decisão da Moody’s:
1) Portugal vive há uma década a crescer de forma anémica (e viveria há duas, não fossem os programas de obras públicas e expansão do Estado dos anos 90); em consequência, vive há uma década a endividar-se à taxa de aproximadamente 10% do PIB ao ano; será este o melhor cenário económico de um devedor credível?
2) A maneira como a UE vem lidando com esta crise não augura nada de bom. De resto, só assim se percebe a reacção europeia à decisão da agência americana. Não foi pelos lindos olhos de Portugal, mas pelo retrato devastador que é feito da abordagem europeia ao problema. Na segunda-feira, aliás, meras 48 horas após o burburinho contra a Moody’s, a UE deu mais um passo que antes jurara nunca vir a dar, ao reconhecer que o melhor caminho para a Grécia é um incumprimento parcial; ou seja, ao reconhecer que a dívida da Grécia é efectivamente “lixo”. Custa imaginar que Portugal seja muito diferente?
3) O célebre “plano da troika” é praticamente impossível de concretizar, como, note-se, têm sido os planos para a Grécia; e mesmo que fosse, provavelmente não serviria de muito.
Não terá afinal sido a Moody’s a verdadeira amiga de Portugal?