Archive for Julho, 2011

Democratas

Julho 6, 2011

Por via do André, tomo conhecimento deste triste exercício de assassínio de carácter. É também triste pela ignorância envolvida, seja própria seja presumida nos leitores (não sei). Brevemente:

1. Carl Schmitt não é um crítico da democracia, é um crítico do liberalismo.  Schmitt acreditava no poder de excepção do soberano. Como, no mundo contemporâneo, o soberano é o povo,  Schmitt acreditava que todo o poder de excepção no mundo contemporâneo se teria de fundar na democracia. Acusar alguém de ser liberal, anti-democrático e schmittiano é um simples absurdo.

2. Não conheço tudo o que o Miguel escreveu, mas daquilo que conheço, o Miguel apenas é um crítico da democracia na medida em que a democracia envolve uma dimensão conformista, totalitária e liberticida; na medida em que a democracia procura restringir diversas liberdades, incluindo a de pensamento, nomeadamente a liberdade de criticar a democracia – daí o conformismo, o totalitarismo e o liberticídio potenciais na democracia. Daquilo que conheço, o que o Miguel procura é preservar a liberdade no interior da democracia, contra as suas piores tendências. Convém relembrar a velha boutade churchilliana que toda a gente cita e muita parece ainda não ter percebido completamente: a democracia é o pior dos regimes… com excepção dos outros todos (sublinhado meu).

3. A concepção de autoridade do Miguel não é a do seu exercício violento e brutal. A sua concepção é a de uma autoridade suficientemente respeitada para não ter de ser exercida de forma violenta e brutal.

Sei que é fútil o que acabo de escrever. Já a esquerda toda anda a cavalgar a patacoada. A fama está criada e acompanhará o Miguel Morgado para o resto da sua vida: a partir de agora será sempre “o tipo que não gosta da democracia”. Parabéns!

Adeus às armas

Julho 5, 2011

(Publicado no jornal Metro, 30/6/2011)

As democracias ocidentais nem sempre são bons parceiros militares. Oscilando entre o espírito de missão, que durante algum tempo as faz não pensar em mais nada, e a passividade de quem gosta muito de chorar a desgraça do outro mas à distância, de preferência pela televisão, nunca se sabe muito bem o que vão fazer. A semana passada, o presidente Obama anunciou o princípio da retirada do Afeganistão, apenas dois anos depois de ter lançado mais 30.000 soldados no terreno, para uma arrancada final vitoriosa. Como toda a gente se lembra, o Afeganistão era a “guerra necessária”, por oposição à “guerra de escolha” (uma má escolha) do Iraque. Passou o tempo e a arrancada não resultou. Mas Obama quer-nos fazer crer que sim (talvez querendo convencer-se a si próprio). Ao contrário do que disse (acentuando a presumível derrota da al-Qaeda), os soldados americanos vão deixar atrás de si um país pronto para a guerra civil. Coisa que se juntará ao lamentável episódio líbio, onde as tribos se encontram já em plena guerra civil. No outro dia, o secretário da Defesa americano queixou-se de que os países europeus, ao fim de apenas onze semanas de combates, já não tinham munições para continuar a ajudar os seus amigos “rebeldes”. Entretanto, a coligação é um saco de gatos. Ou consegue um avanço final e rápido, ou certamente abandonará a Líbia em pleno banho de sangue.

No meio disto, sobra uma intervenção bem sucedida, a do Iraque. Curiosamente, aquela que toda a gente detestou, que envenenou as relações internacionais na última década, que determinou a desgraça do anterior presidente americano e em parte elegeu Obama. E aquela de que, ainda hoje, ninguém fala. O Iraque está longe de ser a perfeição, mas expulsou um dos mais horríveis ditadores do mundo e mantém uma interessante funcionalidade democrática. Porque não se alegram os países ocidentais com este seu contributo? As democracias do ocidente devem parecer muito estranhas vistas a partir do deserto da Líbia.


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