Europeístas

(Publicado no Diário Económico, 26/5/2011)

Foram décadas de loas à União Europeia. Não terá havido português respeitável e sério que não tenha escrito algum dia algum louvor a essa oitava maravilha à face da terra. Agora, basta uma leitura cursiva pelas páginas dos jornais para deparar com artigo atrás de artigo explicando o horror que ela é. Não há muito tempo, bastava alguém levantar uma dúvida sobre a sensatez da Agenda de Lisboa (quem se lembra desta relíquia?), a Constituição Europeia, o Tratado de Lisboa ou a forma como se construiu o euro para logo ser acusado do pior que há: eurocéptico. Tão mau ou pior quanto fascista ou neoliberal. Hoje em dia, parece que há um eurocéptico em cada esquina.

Talvez alguma calma seja precisa. Tal como acontece com a democracia, que é preciso preservar de alguns democratas, também a Europa precisa de ser preservada de alguns europeístas. Escrevo-o com a autoridade de quem já foi muitas vezes mimoseado com o insulto. A Europa continua a ser essencial para que os países que a constituem se afirmem. Mas para isso não se lhe deve pedir que faça o que não pode fazer e, sobretudo, não se lhe deve pedir que faça o que não deve fazer. O euro é um exemplo claro: antes dele, os países cooperavam, com poucos conflitos, na uniformização de certos aspectos de legislação, na circulação de mercadorias ou de factores de produção; depois dele, à primeira crise, começaram as mais horríveis acusações. Eis como um certo europeísmo ameaça estragar a Europa. Muitos europeístas, apercebendo-se agora da disfuncionalidade do seu filho dilecto, insistem que é “preciso ir mais longe”, no caminho louco da “plena integração política”. Não terão olhado bem para o passado: Carlos V, Filipe II, Luís XIV, Napoleão, Hitler, são outros tantos exemplos mais ou menos trágicos de tentativas de “plena integração política europeia”. Dirão que agora tudo é diferente, graças à democracia. Ninguém pretende usar os métodos daqueles imperadores de antanho. Com certeza que é, mas para pior. Precisamente por causa da democracia, hoje seria completamente intolerável uma integração que não respeitasse os códigos desse tipo de regime. Mas na ausência de um povo europeu que eleja os seus representantes, essa democracia europeia não pode ser feita.

O actual momento da Europa deveria ser um excelente pretexto para reintroduzir uma certa modéstia no dito “projecto europeu”, justamente para impedir que ele se arruíne às mãos dos seus mais indefectíveis defensores. Reduzida à dimensão correcta de uma instância de cooperação entre democracias, a União Europeia continua a ser essencial para elas se afirmarem no mundo. Mas para isso seria preciso tirá-la das mãos dos seus amigos mais destravados.

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