Archive for Maio, 2011

Europeístas

Maio 27, 2011

(Publicado no Diário Económico, 26/5/2011)

Foram décadas de loas à União Europeia. Não terá havido português respeitável e sério que não tenha escrito algum dia algum louvor a essa oitava maravilha à face da terra. Agora, basta uma leitura cursiva pelas páginas dos jornais para deparar com artigo atrás de artigo explicando o horror que ela é. Não há muito tempo, bastava alguém levantar uma dúvida sobre a sensatez da Agenda de Lisboa (quem se lembra desta relíquia?), a Constituição Europeia, o Tratado de Lisboa ou a forma como se construiu o euro para logo ser acusado do pior que há: eurocéptico. Tão mau ou pior quanto fascista ou neoliberal. Hoje em dia, parece que há um eurocéptico em cada esquina.

Talvez alguma calma seja precisa. Tal como acontece com a democracia, que é preciso preservar de alguns democratas, também a Europa precisa de ser preservada de alguns europeístas. Escrevo-o com a autoridade de quem já foi muitas vezes mimoseado com o insulto. A Europa continua a ser essencial para que os países que a constituem se afirmem. Mas para isso não se lhe deve pedir que faça o que não pode fazer e, sobretudo, não se lhe deve pedir que faça o que não deve fazer. O euro é um exemplo claro: antes dele, os países cooperavam, com poucos conflitos, na uniformização de certos aspectos de legislação, na circulação de mercadorias ou de factores de produção; depois dele, à primeira crise, começaram as mais horríveis acusações. Eis como um certo europeísmo ameaça estragar a Europa. Muitos europeístas, apercebendo-se agora da disfuncionalidade do seu filho dilecto, insistem que é “preciso ir mais longe”, no caminho louco da “plena integração política”. Não terão olhado bem para o passado: Carlos V, Filipe II, Luís XIV, Napoleão, Hitler, são outros tantos exemplos mais ou menos trágicos de tentativas de “plena integração política europeia”. Dirão que agora tudo é diferente, graças à democracia. Ninguém pretende usar os métodos daqueles imperadores de antanho. Com certeza que é, mas para pior. Precisamente por causa da democracia, hoje seria completamente intolerável uma integração que não respeitasse os códigos desse tipo de regime. Mas na ausência de um povo europeu que eleja os seus representantes, essa democracia europeia não pode ser feita.

O actual momento da Europa deveria ser um excelente pretexto para reintroduzir uma certa modéstia no dito “projecto europeu”, justamente para impedir que ele se arruíne às mãos dos seus mais indefectíveis defensores. Reduzida à dimensão correcta de uma instância de cooperação entre democracias, a União Europeia continua a ser essencial para elas se afirmarem no mundo. Mas para isso seria preciso tirá-la das mãos dos seus amigos mais destravados.

Estado nacional

Maio 27, 2011

(Publicado no jornal Metro, 26/5/2011)

Os inspiradores motes da campanha do PS são “defender Portugal” e “defender o Estado Social”. Trata-se de uma “narrativa” (cá está…) um pouco delirante. Deve ser para defender o Estado Social que se congelam pensões, cortam subsídios de desemprego e aumentam impostos. E deve ter sido para defender Portugal que se atrasou o pedido de ajuda externa, assim acrescentando à conta do Orçamento milhões em juros que subiam dia a dia. E deve também ser em defesa de ambas as coisas que se arenga contra o “africanista de Massamá”. Em si, o lapso (?!) racista foi interessante. Mas mais interessante ainda foi o espectacular silêncio da esquerda que se seguiu. João Pereira Coutinho notou muito bem a hipocrisia. O famoso “Dia da Raça” de Cavaco, ou a não menos famosa homenagem aos veteranos da “Guerra do Ultramar”, deram direito a semanas de opiniões indignadas. Que ainda hoje reaparecem quando convém. Já sobre o “africanista de Massamá” não se ouve nada.

Também deve ser em defesa de Portugal e do Estado Social que se arregimentam uns emigrantes à porta das embaixadas para a campanha. Em imagens reminiscentes do cortejo de Gungunhana pelas ruas de Lisboa, deprime ver uns homens de turbante transformados em pequenos palhaços com t-shirts em que asseguram “defender Portugal”. Eles que não falam português, não têm capacidade para votar e foram pagos à refeição e promessas de legalização. Tudo em nome do homem que verte uma lágrima furtiva pelas Novas Oportunidades e acusa o PSD de (pelo menos na Educação) querer voltar ao período “anterior ao 25 de Abril” (se até Sócrates tem de usar a estafada técnica do anti-fascismo é porque algo vai muito mal). Raramente em Portugal se atingiu um nível tão baixo na degradação da democracia, no populismo e na demagogia. Para citar outro alto dignitário do partido: raramente o nível foi tão “foleiro”.

O PS tem demasiadas responsabilidades na construção da democracia portuguesa para se deixar cair nesta vida degradada e degradante.

Uma história de sucesso

Maio 20, 2011

(Publicado no jornal Metro, 19/5/2011)

Diz que os peregrinos à Cova da Iria do último 13 de Maio presenciaram um milagre: o sol apareceu muito brilhante e aureolado por uma espécie de arco-íris. É verdade que ninguém o viu a bailar, como a 13 de Outubro de 1917, ou falou com Nossa Senhora, sob a forma de uma boneca muito branca e de voz aflautada, como aconteceu com Lúcia a 13 de Maio do mesmo ano. Mas a crise actual não é a mesma daqueles dias, quando Portugal participava na I Guerra Mundial e vivia no limiar da fome. Nossa Senhora terá agora preferido meios menos directos.

Claro que a opinião pública urbana (a que conta) recebeu a notícia com indiferença. Já quase toda ela absorveu a ideia de que tudo, desde 1917, não passa de intrujice. João Ilharco tentou mesmo prová-lo “cientificamente”, em 1971. Ilharco “demonstrou” que a imagem de Nossa Senhora não passou de um truque de prestidigitação obtido com uma boneca de porcelana e um jogo de espelhos, e alguém por detrás dos arbustos a fazer falsete. Mas a opinião urbana talvez pudesse olhar para isto numa perspectiva mais adequada à sua prioridade aos valores materiais: Fátima é uma das poucas histórias de sucesso internacional português, que contribui para limitar o endividamento externo.

As aparições na Cova da Iria começaram por ser um motivo de devoção popular que a Igreja demorou a confirmar. Desde sempre tiveram um lado pagão, manifesto no culto da Senhora, a cuja estátua se atribuíam poderes milagreiros, assim como às folhas das árvores circundantes. A Igreja nunca apreciou esta espécie de candomblé desprestigiante. Foi a persistência do culto popular, associada à instrumentalização pelo Estado Novo e pelo anti-comunismo, que permitiu a institucionalização de Fátima. Hoje Fátima é um enorme serviço exportável, garantindo centenas de milhões de euros por ano em meios de pagamento estrangeiros, que ajudam a cobrir a dívida externa. Talvez Nossa Senhora tenha querido “puxar” (como se diz) pelo santuário e pelo país nesta hora de provação.

A troika é nossa

Maio 13, 2011

(publicado no Diário Económico, 12/5/2011)

A avaliar pela recepção ao “memorando de entendimento”, Portugal é mesmo um país original: não há memória de outro lugar em que um plano de austeridade tenha sido recebido com semelhante euforia. A euforia não foi propriamente da população em geral, mas de inúmeros políticos, economistas e comentaristas, que exultaram com as propostas, particularmente na parte das ditas “reformas estruturais”. Claro que a principal razão para isto foi o receio de que a célebre “troika” viesse num espírito neocolonial, punitivo, de pôr e dispor. Afinal, saíram-nos uns tecnocratas suaves, que se dedicaram a ouvir toda a gente e, no final, verteram para papel aquilo que ouviram e representa uma espécie de repositório da sabedoria convencional portuguesa sobre o que está mal com o país. Haverá poucos documentos mais portugueses do que o dito memorando. Pode dizer-se que a “troika” chegou e, acto contínuo, se cafrealizou.

Em meras 34 páginas, o memorando propõe-se resolver todos os problemas do país: as golden shares, as empresas públicas, o abandono escolar, a sustentabilidade do sistema de Saúde, as margens de lucro das farmácias, a lei das falências, a morosidade do sistema de Justiça, a rigidez do mercado laboral, a negociação colectiva, a anemia do mercado de arrendamento residencial, a ineficiência da administração fiscal, o mercado energético e até mesmo o ordenamento administrativo do território (suprimindo concelhos e freguesias). Ou seja, propõe-se resolver em três anos todos os problemas que não foram resolvidos em trinta. Como bem notou António Nogueira Leite, é fácil fazer uma apresentação em power point cheia destes temas. Difícil é fazer deles uma viabilidade política. Qual o governo que será capaz de enfrentar, ao mesmo tempo, os sindicatos da aviação, as centrais sindicais, os sindicatos da função pública, as corporações dos médicos e advogados, os farmacêuticos, os laboratórios médicos, as empresas de energia, os grupos económicos, os autarcas, os professores, para além da multidão de pessoas que beneficiam de rendas ínfimas ou de empregos camarários? Como qualquer vulgar programa de governo feito por um partido português, trata-se de um documento vagamente delirante. Não admira que tenha sido tão apreciado: afinal quase todos podemos encontrar nele o nosso particular fetiche político.

No fim, de realmente sério fica a austeridade: os aumentos, directos ou indirectos (via benefícios fiscais), dos impostos, o congelamento de salários, a redução dos custos de operação de empresas públicas, a redução do subsídio de desemprego, etc. E aí o memorando prevê uma longa recessão, no final da qual espera que ainda estejamos em pé. Talvez com muita reza.

Obush

Maio 13, 2011

(Publicado no jornal Metro, 12/5/2011)

Em democracia, o melhor é mesmo deixar a direita governar. Não pelos seus particulares méritos, mas porque é a única altura em que a esquerda não cala. Só nessa altura as democracias adquirem aquele ar caótico que os democratas tanto apreciam, com discussões ferozes e conflito pacífico. Quando governa a esquerda (ou aquela que a esquerda considera esquerda), a esquerda cala. Há aqui uma longa tradição: a esquerda calou os horrores soviéticos, os horrores da China maoísta e de todo o mundo socialista do tempo da cortina de ferro. E ainda hoje cala os horrores cubanos e da Coreia do Norte ou o folclore autoritário venezuelano. E parece que cala também (pelo menos uma parte dela) as brutalidades da administração Obama.

Obama não tem que se preocupar por deixar Guantánamo aberto, julgar os seus detidos através de tribunais militares, usar a tortura, lançar uma guerra no norte de África, tentar matar Khadafi e efectivamente liquidar sem julgamento Osama Bin Laden. Tudo isto era visto pelo próprio e pela esquerda em geral ainda há três anos como o supremo horror, digno de rasgar vestes e organizar manifestações globais, de Sydney a São Francisco, passando por Londres e Lisboa. Enfim, não há muito que dizer. Mais preocupante é a utilização de tudo isto.

Veja-se o caso da execução de Osama. Foi um óptimo pretexto para Obama ter o seu momento Bush: macho, justiceiro, belicista. Completado com um passeio pelo Ground Zero, tal como Bush há dez anos. Mas se é capaz de lhe dar a reeleição, parece um bocado fora de moda. Talvez fosse mais interessante esperar da América outra coisa agora, como por exemplo tentar contribuir para que as “revoluções árabes” seguissem vias democráticas. Mas nem por isso: apostada em reconciliar-se com os autoritarismos do Médio Oriente, a administração Obama nunca soube o que fazer com elas, acabando por se meter atrapalhadamente na Líbia, enquanto na Síria se mata e no Egipto tudo vai correndo mal. Uma oportunidade que parece estar a perder-se.

Música no Coração

Maio 6, 2011

(Publicado no jornal Metro, 5/5/2011)

Parece incompreensível que o casamento do segundo príncipe na linha sucessória de uma monarquia (e país) decadente(s) atraia o mundo inteiro. Ignoro se os monárquicos apreciaram o espectáculo, mas é provável que não. O matrimónio de William e Kate, no seu carnaval pop, limitou-se a ser mais um passo na afirmação do verdadeiro soberano dos nossos dias: o povo (primeiro inglês, depois americano e, apenas por causa deste último, do mundo inteiro).

Os casamentos reais de outrora eram um espectáculo de afirmação soberana. Mas desde as revoluções ditas liberais, do século XVII em diante, que a soberania transitou para o povo. As modernas monarquias constitucionais não são verdadeiras monarquias, no sentido em que a soberania seja dinástica. Elas são repúblicas democráticas que toleram a existência da monarquia apenas como símbolo nacional. Já João Chagas dizia em 1908, “a Inglaterra é uma velha, velhíssima, república, que se colocou sob a invocação do poder monárquico”. O próprio nome Windsor, da casa que reina na Commonwealth, foi inventado em 1917, em plena I Guerra Mundial (uma guerra nacional e democrática), por Jorge V, para evitar a ressonância alemã do nome original da família: Saxe-Coburgo-Gota.

Por acaso nos EUA há umas semanas, por motivos de trabalho, apercebi-me da verdadeira “casamentite” que invadiu aquele país normalmente tão democrático: os preparativos abriam o noticiário, mesmo antes da discussão do Orçamento ou da guerra da Líbia. Apesar do desprezo que nutre pela Inglaterra, como antiga potência colonizadora, o povo americano tem a nostalgia do império. Não foi o poder dos Windsor nem da Inglaterra a dar dimensão mundial ao evento, mas o poder da óbvia beleza dos noivos e da indústria do entertainment americana (que precisa dessa beleza), transformando-o numa verdadeira festa para o povo. E foi graças a essa indústria que o mundo inteiro se agarrou à televisão, julgando provavelmente estar a ver em directo uma espécie de Música no Coração real.


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