Presidente paralelo

(Publicado no jornal Metro, 28/4/2011)

Decerto angustiado com o estado a que chegou o regime de que é legitimamente considerado o fundador, Mário Soares elegeu-se a si próprio Presidente paralelo. Desde há semanas que aparece a criticar o Presidente em exercício: que devia ter promovido entendimentos entre o PS e o PSD, que não larga o Facebook, que tem de “intervir”… Pelo meio, assinou, em conjunto com uma série de senadores, um texto em defesa de um “compromisso nacional”. O último acto foi uma entrevista ao jornal i, na qual elogia Pedro Passos Coelho. Tudo faz sentido: Soares parece querer dizer-nos que, se fosse Presidente, em vez de estar quieto como Cavaco, andaria a promover um grande entendimento entre os maiores partidos. Passos Coelho deve parecer-lhe uma pessoa óptima para isso. No entanto, temos sabido que entre Coelho e Sócrates as coisas, para sermos benevolentes, não fluem muito bem. Promover Passos Coelho corresponde a despromover Sócrates. Soares percebeu que com Sócrates não há nenhum “entendimento central”. Para este projecto, bom seria, portanto, que o PSD ganhasse por pouco, para que Sócrates partisse e outro líder capaz de falar com o PSD viesse a seguir.

Tudo isto é muito bonito, mas, como é evidente, Cavaco nunca estaria autorizado a fazer tal coisa. O ódio da esquerda a Cavaco já a fez criticá-lo por tudo: por intervir, por não intervir, por falar e por não falar. Se ele se lembrasse de promover entendimentos, já andava por aí em guerra civil com a Presidência. Depois há o grande problema Sócrates. Se ele ganhar, como não parece impossível agora, não vai haver “entendimentos”, excepto se for para manter a posição de comando.

Resta ainda saber para que serve o “compromisso”. Para aplicar o pacote do Fundo Monetário Internacional/Fundo Europeu de Eestabilização Financeira/Banco Central Europeu? Se o resultado for o mesmo da Grécia e da Irlanda, será a maneira de comprometer todo o regime com uma política falhada. Os anteriores pacotes do FMI em Portugal tiveram condições para funcionar e salvaram a democracia. Já com este não é nada certo.

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