Fins de regime

(Publicado no Diário Económico, 28/4/2011)

Uma das mais prósperas indústrias dos dias que correm é a dos anúncios do fim do regime. Os tradicionais génios de página de jornal, perante as óbvias dificuldades por que o país passa, fartam-se de decretar que o regime está morto ou pelo menos moribundo. Nunca se percebe muito bem se é uma constatação ou antes uma manifestação de regozijo. É mais provável que seja a última, até porque vem normalmente acompanhada de imensas considerações sobre a profunda idiotia dos portugueses. Ora, se os portugueses são idiotas, é porque precisam de outro regime.

Mas esta coisa de decretar a morte de regimes de forma ligeira ao teclado do computador tem que se lhe diga. Talvez valha a pena lembrar que não se muda de regime como quem muda de camisa. Em Portugal, no século XX, ocorreu três vezes: da monarquia constitucional para a I República, da I República para o Estado Novo e do Estado Novo para a corrente democracia. Das três mudanças apenas a última mereceria alguma simpatia, já que a I República foi um regime disfuncional, dominado por um só partido, carregado de violência, fraude eleitoral e corrupção, e o Estado Novo foi o que foi. Talvez valha a pena também lembrar que mudar de regime implica desde logo a interrupção temporária dos mecanismos políticos e institucionais da situação existente. Normalmente, segue-se um período de guerra civil latente ou declarada. Foi o que aconteceu das três vezes, tendo o país sido devolvido durante algum tempo a um grau maior ou menor de violência política. Enfim, será igualmente interessante lembrar que uma mudança de regime não tem de ser para melhor. É exactamente o que ilustra o nosso século XX: qual a grande vantagem em substituir a monarquia constitucional pela I República e esta pelo Estado Novo? E se a substituição pela democracia correu bem, lembre-se como durante um período se correu o risco de ela ter sido feita em favor do comunismo.

Os arautos do fim do actual regime devem imaginar que basta agora, como já não gostam do que vêem, estabelecerem esse fim e construírem, mais uma vez ao teclado do computador, o seu regime. É provável que não se apercebam como duas coisas, pelo menos, aconteceriam: dado que a sua não é a única visão do que deve ser um regime, teriam de lutar com outras muito diferentes; não parecem pessoas dispostas a isso. E mesmo que fossem, e resistissem, no final resultaria qualquer coisa que não seria o seu regime, mas outro qualquer, talvez bem pior do que o actual.

Num país onde a democracia liberal durou tão pouco tempo e a história dos regimes anteriores não se recomenda, deveria ser-se menos ligeiro a sugerir substituições de regime. Há formas menos perigosas de preguiça intelectual.

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