Archive for Março, 2011

Fazia falta

Março 28, 2011

Agradeçamos ao Miguel Morgado esta obra caritativa. Miguel que também fez o favor de publicar há pouco um notável ensaio sobre um tema em que todos devíamos pensar um bocadinho (só um bocadinho…) mais:

Bombas humanitárias

Março 25, 2011

(Publicado no Jornal Metro, 24/3/2011)

Nas revoluções árabes, passámos da encantadora fase Twitter para a mais barulhenta fase das bombas. Estava tudo a ser tão bonito. Tinha de vir um qualquer Khadafi estragar tudo. O presidente Obama, eleito para acabar com o belicismo de Bush e restaurar “os laços” com o mundo islâmico, já tem a sua própria guerra. E o mesmo se diga dos europeus, outrora tão orgulhosos do seu “soft power”.

Esta guerra mal atamancada nasceu da incapacidade de Obama e dos europeus para pensarem o problema da liberdade no mundo islâmico. Depois de Bush, conferiram legitimidade às ditaduras locais e acreditaram na sua estabilidade. Só que os próprios árabes não eram da mesma opinião. Recusando a “agenda da liberdade” da anterior administração e apostando nas autoridades vigentes, os ocidentais ficaram sem saber o que fazer das revoluções. Quando a matança de Khadafi ameaçou estragar a sua imagem idílica (o Facebook, etc.), tiveram de improvisar uma guerra de desespero, invocando “razões humanitárias”.

Mas esta não é uma guerra humanitária. É, tal como no Iraque, uma guerra para mudar o regime, com a diferença de que os ocidentais não o reconhecem, o que torna tudo muito perigoso. Uma guerra para mudar o regime obrigaria a um compromisso, como no Iraque, em permanecer até se criarem novas instituições. Mas existiria então o custo de enviar soldados e burocratas para o terreno. Em vez disso, temos uma guerra em que o heroísmo ocidental se mede até ao último rebelde líbio morto. Porque se não é para mudar o regime, a alternativa é a mera participação numa guerra civil e a destruição da Líbia enquanto país. Pode alguém dizer que se trata de ajudar o lado anti-governamental e deixá-lo, depois, reconstruir. Mas alguém sabe quem são realmente os rebeldes, para além daqueles beduínos de que os fotógrafos tanto gostam cavalgando o deserto nas suas carrinhas pick-up? E se os bombardeamentos à distância não funcionarem, o que fazem os ocidentais? Vão-se embora, com um país a arder às costas?

A Europa e a democracia

Março 22, 2011

(Publicado no Diário Económico, 17/3/2011)

Como uma aplicada agência executiva local, o chamado Governo português põe em prática, a pedido, medidas de austeridade atrás de medidas de austeridade. A verdade é que o Governo português democraticamente eleito em Setembro de 2009 não tem neste momento uma política própria, pelo menos algo que vá além da implementação de decisões tomadas por outras entidades e da pedinchice para que os “parceiros” europeus nos “salvem”. Vendo bem, esse governo já não existe.

A célebre declaração do primeiro-ministro aos jornalistas na segunda-feira passada mostra isso mesmo: a crise política é má porque “descredibiliza” Portugal perante a “Europa”. Mas numa democracia talvez fosse bom saber se “descredibiliza” perante os eleitores. É fascinante ver a União Europeia, que tão importante foi para (e tanto se confundiu com) o nosso regime democrático, transformar-se agora num dos mais importantes elementos de perturbação do seu funcionamento. O Governo, que de PEC em PEC (incluindo o Orçamento em vigor) vai dizendo que é o último, demonstra ao mesmo tempo (de cada vez que produz novas medidas) os seus sucessivos erros – é que se as medidas fossem tão decisivas não era preciso estar sempre a pedir novas. Em seu benefício, o Governo só tem a apresentar o facto de, na realidade, as medidas não serem suas, mas da “Europa”, o que quer que isso signifique actualmente. Mas se não são suas, o que está lá a fazer?

A sucessão de PECs foi testando os limites da capacidade do maior partido da oposição para a sustentar. Os dois primeiros justificaram-se por conterem “medidas excepcionais”. O Orçamento justificou-se por ser, precisamente, o Orçamento – ainda por cima o tal que iria garantir a sustentabilidade de longo prazo das contas públicas. Um novo PEC é a negação do que antes foi negociado. O PSD não podia deixar de recusar o apoio. Mas rapidamente se percebeu que o PSD não está a negociar com o Governo português (como vimos, esse já não existe). O PSD está a negociar com a “Europa”. E a “Europa” não sabe (nem quer saber) quem é o PS ou o PSD. Só quer saber se conta com alguém para executar o que é necessário. E aquilo que é uma impossibilidade democrática (a oposição voltar a apoiar o Governo) é a política da “Europa”.

Qualquer governo que substitua o actual terá de pensar em estratégias que resgatem a nossa democracia deste maquinismo infernal, que é capaz de não salvar a economia e que está a destruir a democracia portuguesa diante dos nossos olhos. Qualquer governo que venha aí terá talvez de pensar o impensável. Isto para não lhe acontecer o impensável. E sobretudo para não continuar a ser, como o actual, um mero e obediente autómato.

Comício inaugural

Março 22, 2011

(Publicado no jornal Metro, 17/3/2011)

A declaração do primeiro-ministro aos jornalistas na segunda-feira foi um acto de campanha eleitoral. Foi, digamos, o comício inaugural da campanha para as próximas eleições legislativas. Só deste modo se compreende a sua insistência em recusar terminantemente a “ajuda externa”. Como já toda a gente percebeu, a dita “ajuda” é o melhor instrumento para fazer baixar os juros pedidos pela venda de dívida pública portuguesa. Como também já toda a gente percebeu, essa “ajuda” é praticamente inevitável. Mas aceitá-la sem mais seria a morte do Governo. Logo, a melhor maneira de ganhar alguma posição será dizer que, se tivermos que recorrer a ela, isso se deverá à ausência de condições de “governabilidade”, atribuindo a responsabilidade à falta de apoio do PSD.

O Governo sabia que não poderia voltar a contar com o PSD para mais um PEC. Mas a recusa do PSD é o argumento ideal para lançar sobre ele o célebre ónus da instabilidade: se o Governo cair, a responsabilidade não é sua mas dos traidores que não o apoiaram neste momento tão difícil. Para mais, o Governo tem-se entretido a envenenar as relações com o Presidente da República, desde o primeiro mandato, mas sobretudo desde a campanha presidencial, com o último refinamento de não o informar acerca do mais recente pacote de medidas – um uso rasca dos mecanismos institucionais da nossa democracia. Se o Presidente já tinha dúvidas sobre a benevolência com que deveria tratar o Governo, perdeu-as por completo há cerca de uma semana.

O Governo pode assim cair e receber a “ajuda externa”, ao mesmo tempo que explica que as duas coisas estão ligadas e que, se não caísse, a tal “ajuda” não seria necessária. Pode pois, desta forma, construir uma narrativa em que se apresenta como o intrépido defensor do país contra a oposição irresponsável, que escancara a pátria ao “estigma” da “intervenção estrangeira”.

É a melhor maneira de tentar um resultado eleitoral aceitável. Mas não é nada seguro que seja suficiente.

“Like” Revolution

Março 11, 2011

(Publicado no jornal Metro, 10/3/2011)

Talvez a maior contribuição do jornalismo ocidental para a compreensão das “revoluções árabes” tenha sido identificá-las com as “redes sociais”. A doutrina divide-se em vários grupos, indo dos que defendem, modestamente, que elas foram “importantes” para as revoluções até àqueles para quem, sem elas, “as revoluções não teriam acontecido”. Como se sabe, nunca houve revoluções políticas antes do Facebook, da Internet e dos telemóveis. Já Cromwell, em 1640, teclava furiosamente no seu Samsung 3G. Todos fomos ensinados a ver na tomada da Bastilha o maior exemplo de uma acção em “rede social”. Evoque-se ainda Lenine e o seu Blackberry, através do qual comunicava com Trotski (que, ao que consta, preferia o iPhone). E quem não se lembra de Salgueiro Maia e do seu inseparável portátil Toshiba Satellite U300 – 14P?

Esta identificação das “revoluções árabes” com as novas tecnologias resulta talvez de duas coisas. Uma, aquela tendência infantil, muito Disney, que adora antropomorfizar animais para melhor se identificar com eles. Poderá haver coisa mais comovente do que um panda gordinho que fala e do que um árabe com conta de hi5? A outra é uma verdadeira incapacidade para compreender estas revoluções. Habituados a zurzir no “capitalismo selvagem”, sempre à espera da “crise ocidental” final, não compreendemos as “crises finais” de sistemas que tínhamos por “estáveis” (quem sabe, “milenares”?). Lembra os velhos “sovietólogos”, que no dia anterior à queda do muro de Berlim continuavam a antecipar o momento em que a URSS ultrapassaria os EUA em mísseis balísticos.

Agora toda a gente quer “democracia” no mundo árabe, o mesmo regime que aqui no Ocidente está sempre em crise. É uma devoção nova. Ainda o ano passado quem propunha tal coisa era tido por um triste “eurocentrista” ou por (supremo horror!) um apologista da “americanização” do mundo. Toda a gente quer a democracia, mas fez muito pouco para isso. Serão más notícias, mas não é graças ao Twitter que se vai lá chegar.

Um manifesto

Março 10, 2011

Juntámo-nos 7 para propor umas ideias para o Sporting. Há muito que comentávamos entre (alguns de) nós que se tinha chegado a uma situação insustentável. Nos últimos anos, o Sporting parecia ter alguns elementos que lhe davam identidade: o clube bem gerido financeiramente, mesmo se com frequentes fracassos desportivos, o clube da formação, que fazia nascer os Futres, Figos, Simões, Quaresmas, Cristianos ou Moutinhos deste mundo, mesmo se depois não conseguia (claro que não conseguia!) ficar com eles (isto porque há muito que perdeu a identidade do clube das “modalidades amadoras” – quando era miúdo, o Sporting era campeão em atletismo, ciclismo, basquetebol, andebol, hóquei em patins…). O manifesto nasceu da sensação de que já nem sequer aqueles aspectos de identidade sobrevivem. Começa assim:

O debate sobre o futuro do Sporting tem sido conduzido, a nosso ver, de forma deslocada e inconsistente. Não tem havido sequer um verdadeiro debate. Não pretendemos ouvir nomes de treinadores ou jogadores. Não queremos promessas de dinheiro. Tememos populistas, e suspeitamos dos que apresentam a sua proximidade ao poder ou dinheiro como uma vantagem para o Sporting. Temos apenas a convicção de que é preciso discutir o Sporting de forma diferente.

E continua aqui.

Destinos cruzados

Março 4, 2011

(Publicado no Diário Económico, 3/3/2011)

Angela Merkel e José Sócrates encontraram-se ontem. À hora a que escrevo, ignoram-se ainda os resultados da reunião. Mas os dois estão mais próximos entre si do que se julgaria. Ambos querem ganhar tempo. Para Merkel começa a ser impossível suportar a pressão interna contra uma maior participação alemã no salvamento das economias periféricas do euro: depois da derrota em Hamburgo, os partidos da sua coligação recusaram a “flexibilização” do Fundo do Euro, e aproximam-se agora seis eleições com más perspectivas. Para além disso, Merkel sabe que a “europeização” da “ajuda” alemã é um grande passo na criação de uma espécie de Ministério das Finanças europeu e, logo, de uma espécie de Estado europeu. É muito difícil, portanto, que faça mais do que já fez. Mas, por outro lado, ela também sabe que sem a tal “europeização” da participação alemã, o euro está efectivamente em risco. Mais do que isso, para o que lhe importa: a solvência da banca alemã (grande investidora em dívida periférica) está em risco. Perante esta embrulhada, a tentação é deixar as coisas andar até à eventual ocorrência de qualquer coisa próxima de um milagre.

Sócrates também quer ganhar tempo. Enquanto não vier a “intervenção” do FMI/Fundo do Euro, pode dizer que está a fazer tudo o que é necessário para “defender Portugal” e que não se justificam eleições antecipadas. Até lá, se a oposição não apoiar o Governo ou o fizer cair, será logo acusada de causar “instabilidade”, podendo efectivamente ser punida com um mau resultado nas tais eleições antecipadas. A vinda da “intervenção” externa é que seria a sentença de morte do Governo e uma grande ajuda à oposição. Também Sócrates prefere, portanto, que tudo fique na mesma até à eventual ocorrência de qualquer coisa próxima de um milagre.

Merkel e Sócrates são, assim, os símbolos perfeitos da tragédia europeia em curso: o único país que pode, mas não quer (mas também quer), salvar o euro, e o país que constitui a ameaça mais próxima ao euro. Se ambos não sabem muito bem o que fazer e, por isso, vão tergiversando até qualquer coisa acontecer, nunca Sócrates disse uma coisa tão certa quanto no outro dia: “depois da crise, a Europa não será a mesma. Ou avança ou recua”. Na sua defesa do “avanço”, o que já não explicou foram as transcendentes consequências disso. Ao contrário do que ele (e a generalidade da classe política portuguesa) julga, recuar também teria méritos. Melhor dito: avançar ou recuar teriam ambos enormes custos certos e méritos apenas hipotéticos. Tratar-se ia de fazer uma escolha política muito difícil que todos deveríamos discutir antes de aceitarmos mais um passo de gigante (talvez mortífero) do dito “projecto europeu”.

O tango

Março 4, 2011

(Publicado no jornal Metro, 3/3/2011)

José Sócrates e Pedro Passos Coelho há muito que dançam o tango (“el tango”, no original espanhol de Sócrates). O tango é uma dança de insinuações eróticas e violentas: os dançarinos tanto parecem amar-se perdidamente num momento como odiar-se no seguinte. O mesmo se passa com os nossos dois artistas. Com a diferença de que não sabemos muito bem como vai acabar.

Sócrates multiplica os gritos de acasalamento: quer comprometer Coelho com tudo, como já fez no passado. Sem maioria absoluta, não quer ficar sozinho, em especial para o Orçamento de 2012, que, de acordo com as regras do novo Reich, tem de começar a ser delineado já em Abril para o encantadoramente chamado “semestre europeu” – o tal “visto prévio” dos financiadores da desgraça portuguesa. Para isto aposta em que Coelho não queira parecer o “fautor da instabilidade”. Não por acaso, “estabilidade” é o mote da moção de Sócrates à chefia do PS.

Quanto a Passos Coelho, não quer efectivamente parecer o “fautor da instabilidade”. Sobretudo por receio de ser prejudicado em hipotéticas eleições no caso de queda do Governo. Mas por outro lado também não quer dar a ideia de estar sempre a adiar o momento para “lá chegar”. Já o fez nos PECs, no Orçamento de 2011 e, agora, na célebre moção do BE. Ainda para mais porque várias sereias lhe cantam: a sereia das sondagens, que o dá perto da maioria absoluta; e a sereia do partido, que está ansioso por se aboletar com uns cargos. Mas como toda a gente sabe, o canto das sereias é perigoso.

Para Coelho, o ideal seria que o FMI-Fundo do euro decretasse o falhanço de Sócrates “intervindo” em Portugal, o que o pouparia ao tal papel de “fautor da instabilidade”. Mas não é certo que a UE não prefira as soluções ad hoc usadas até ao momento, em nome do valor mais alto da “sobrevivência do euro”. Por tudo isto, não vale a pena descartar, por enquanto, a possibilidade do Bloco Central, se a vantagem não for clara para nenhum e a “salvação do país” o exigir. Esse é que seria um belo tango.


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