Archive for Julho, 2010

Biblioteca Nacional

Julho 8, 2010

(Publicado no Jornal Metro, 8/7/2010)

A Biblioteca Nacional de Lisboa é uma espécie de laboratório para investigadores em História e ciências sociais. Teses de mestrado e doutoramento, projectos científicos diversos (muitos deles financiados pelo Estado, através da Fundação para a Ciência e Tecnologia), socorreram-se, socorrem-se e socorrer-se-ão dos fundos lá existentes.

Há cerca de um mês, a direcção da Biblioteca Nacional anunciou o encerramento da sua sala de leitura geral, por motivo de obras, durante quase um ano (dez meses), e o da chamada secção de Reservados durante cinco meses. Reconheça-se que as obras são essenciais. Mas, por um lado, a prática das empreitadas públicas em Portugal caracteriza-se por atrasos proverbiais – ainda há dias o Tribunal de Contas fez-nos saber de atrasos de quatro anos. Por outro, quase um ano (ou mais…) de encerramento compromete o andamento de projectos científicos em curso, aliás já calendarizados. Não são apenas nacionais. São também internacionais (nos Estados Unidos, em Inglaterra, em França, em Espanha ou, sobretudo, no Brasil). Muitas das fontes utilizadas nesses projectos não existem em mais nenhuma instituição. Para além do encerramento por um período tão longo, custa a compreender a tomada desta decisão sem coordenação que se conheça com a comunidade científica do país. Eu, por exemplo, utilizador intensivo da instituição (por razões profissionais), soube primeiro por intermédio de um colega, e depois por uma notícia de jornal.

Um conjunto de utilizadores da biblioteca pôs a circular na Internet uma petição pedindo o adiamento do encerramento e outro faseamento dos trabalhos, não só de forma a precaver prazos já acordados como a permitir uma maior utilização da instituição durante o período de obras, algo que seria possível coordenando um acesso circunscrito a investigadores de acordo com as necessidades. Parece algo da mais simples razoabilidade. A petição está disponível no seguinte endereço: http://www.peticao.com.pt/encerramento-bnp.

Holanda vs Holanda

Julho 8, 2010

A final do campeonato do mundo vai opor a Holanda à Holanda: a propriamente dita e a sua versão espanhola. Nos anos 70 do século XX, a Holanda inventou o futebol que toda a gente tenta jogar hoje, embora apenas alguns o façam bem. Fora da própria Holanda, o país onde esse futebol mais se implantou como tradição foi a Espanha, particularmente a Catalunha, através do Barcelona. Tudo começou com a imigração de Cruyff, e depois prolongou-se até hoje, cristalizando mais recentemente na actual versão do Barcelona, de que a selecção espanhola é uma derivação. Eu gostava que ganhasse a Holanda propriamente dita. Por razões sentimentais e por razões de justiça poética, digamos assim. A selecção de Cruyff, Neeskens, Rensenbrink, Krol, Rep… foi o meu primeiro love affair futebolístico. O campeonato de 1974 foi o primeiro de que me lembro. Mantive nesse campeonato com a selecção holandesa o tipo de relação que muitos dizem ter mantido com o Brasil de 1970, e que voltei a manter mais tarde com o Brasil de 1982 (e outra vez com a Holanda de finais dos anos 80-princípios dos anos 90). No entanto, na final, a Holanda perdeu para a Alemanha. Quatro anos mais tarde, a Holanda voltou a chegar à final (sem Cruyff e sem exactamente o mesmo brilho de 1974, embora sempre acima de muitas outras selecções) e voltou a perder para a Argentina. Acho que agora deviam ganhar, finalmente. Não parecem tão organizados quanto os espanhóis, mas tenho-me divertido mais a vê-los jogar do que aos espanhóis. Se ganhassem, ganhavam os mestres aos aprendizes e ficava tudo certo. Mas infelizmente não é certo.

A outra lição de 2010

Julho 3, 2010

Maior lição do que a de 1982 terá sido a de 1974. Na final desse campeonato, o Brasil europeu (a Holanda) perdeu com os feios, porcos e maus alemães. Nos anos 70, 80 e 90 a Alemanha dominou o futebol mundial (campeões mundiais em 1974, vice-campeões em 1982, vice-campeões em 1986, campeões em 1990; campeões europeus em 1972, vice-campeões em 1976, campeões em 1980, vice-campeões em 1992 e campeões em 1996). Durante esse reinado, o futebol ficou mesmo feio, porco e mau. Depois foi a queda dos últimos 10-15 anos. A Alemanha voltou, mas não para jogar feio, porco e mau. Agora é uma espécie de Holanda mais prática (também a Holanda é uma Holanda mais prática, enquanto a Espanha é uma espécie de Holanda pouco prática). É por isso que faz espécie ver o Brasil e outras equipas (o Portugal de Scolari e Queiroz?) perdidas nos tiques dos anos 90. O futebol de quem toda a gente gosta hoje é uma reedição mais realista do futebol holandês dos anos 70: o Barcelona é uma equipa holandesa, desde que Cruyff foi lá parar em 1973 e se seguiram não sei quantos jogadores e treinadores holandeses; Guardiola é um produto dessa tradição (na qual se chegou a encaixar o “nosso” Figo). Talvez seja outra lição de 2010.

A lição de 2010

Julho 2, 2010

Fala-se muito da lição de 82: o futebol bonito (o brasileiro) não ganha ao realismo táctico (italiano, maquiavélico). Algo que teria sido comprovado com a vitória de 1994, onde se repete o célebre jogo de 82, Brasil-Itália, mas desta vez ganha o Brasil na final, com uma reinterpretação depurada do realismo táctico.

Em 2010, o Brasil italiano foi-se antes das meias-finais. Talvez haja outra lição a tirar.

Mais um candidato

Julho 1, 2010

(Publicado no jornal Metro, 1/7/2010)

Será que toda a gente reparou que existe mais um candidato à Presidência? Chama-se Mário Soares e, por estes dias, opina sobre tudo. À segunda tece mais umas considerações sobre a “crise e o capitalismo de casino”. À quarta explica que a crise é europeia. À sexta que a solução é a federação europeia. No sábado e no domingo, uma série de personalidades de regime prestam-lhe vassalagem em Arcos de Valdevez. Precisamente em Arcos de Valdevez, confessa não se sentir “habilitado” a dar conselhos ao primeiro-ministro. Mas não se poupa nas críticas ao Presidente Cavaco. Ao mesmo tempo, diz que não gosta de homenagens e que só aceitou a de Arcos porque o “amigo” (!?) José Saramago o aconselhou. Caso ninguém tenha percebido, trata-se do mesmo Saramago ao funeral do qual Cavaco faltou. Evento que se transformou numa espécie de funeral de Guerra Junqueiro, uma celebração do regime, que mostrou onde está Cavaco em relação a ele (ao regime, quer dizer). Para que tudo se torne ainda mais claro, a viúva de Saramago envia uma mensagem à mesma homenagem de Arcos de Valdevez.

Claro que Soares não é exactamente candidato. Mas tanta actividade faz uma pessoa perguntar-se sobre se, caso Manuel Alegre não tivesse avançado há muito tempo, ele não quereria mesmo candidatar-se. Tal como as coisas estão, limita-se a patrocinar a candidatura de Fernando Nobre (que aliás também picou o ponto em Arcos). Excepto por duas razões, toda esta actividade é muito intrigante. O PS e a esquerda já têm o seu candidato oficial, precisamente Manuel Alegre. A candidatura Nobre-Soares serve apenas para dividir a esquerda. Porque quer Soares dividir a esquerda? Uma razão seria mesquinha e não pareceria adequada à grandeza pessoal e institucional do homem: ainda ferido pela humilhante derrota que Alegre lhe infligiu há cinco anos, quer ele agora humilhar Alegre. A outra razão seria uma genuína preocupação em ver o PS nas mãos do Bloco de Esquerda, que é na realidade o grande patrocinador da campanha de Alegre. Interessante é ver o candidato Cavaco Silva agradecer tudo isto, já que pode ele apresentar-se como o único ao centro (que até dá brindes à esquerda, como o casamento gay). Soares quer tão pouco ver Alegre em Belém (seja por razões pessoais, seja por razões políticas) que parece não se importar com a permanência de Cavaco, esse homem que não é de “cultura” nem do “regime”.

Phony war

Julho 1, 2010

PSD diz que não teria usado a golden share. Ah pois não! Gracinhas à parte, eu sei é de alguém que deveria ficar bastante alarmado com o voto do BES e da Ongoing.


Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.