Archive for Setembro, 2009

Compilação IV

Setembro 28, 2009

Quem sabe?

(Publicado no jornal Meia Hora, 22/1/2009)

Quer-me parecer que uma das ideias mais perniciosas para o PSD que ultimamente ganhou curso em certos círculos do partido foi a de que ele deveria voltar a adquirir “credibilidade”. O partido foi assim dividido em dois lados irremediavelmente opostos: os “credíveis” contra os “não-credíveis”. Claro que isto alienou uma enorme parte do PSD (a dos presumidos “não-credíveis”). Como julgam os “credíveis” contar com o apoio dos “não-credíveis” para batalhas como as próximas (e seguintes) eleições? Alguns dirão que não querem esse apoio. Mas então talvez se tenham enganado de partido.

Porque esta distinção faz pouco sentido por outros motivos mais profundos. Primeiro, vai contra a natureza do PSD, que sempre foi uma mistura de partido de “quadros” e de partido popular. Os “quadros” seriam os “credíveis”. Só que um partido exclusivamente feito de “quadros” corresponderia a uma espécie de duplicação do CDS, ou então a algo de parecido com um Bloco de Direita, um bocadinho menos ideológico. Já ninguém se lembra, mas Cavaco, nos seus tempos iniciais, fazia parte dos “não-credíveis”. Em segundo lugar, a distinção faz pouco sentido porque, na verdade, os “credíveis” já tiveram a sua hora e revelaram então muito pouca credibilidade. Os “credíveis” transformaram o Governo Santana Lopes em bode expiatório do seu fracasso de 2005. Mas o mal já vinha do Governo Barroso, quando o dito Barroso, numa das alturas mais difíceis do país, não resistiu a fugir das suas responsabilidades, depois de dois anos de governação no mínimo titubeante.

Deve ser engano, mas pareceu-me recentemente que Manuela Ferreira Leite terá começado a perceber isto: entregou a Santana Lopes a candidatura à câmara de Lisboa e, no outro dia, estendeu a mão a Passos Coelho. Parece também ter esboçado um princípio de programa alternativo (coisa que até agora ainda não tinha feito, provavelmente com excesso de preocupação em distinguir-se dos “não-credíveis” do seu próprio partido), ao opor-se com clareza ao TGV e sugerir uma redução de impostos. Em termos de programa seria talvez preciso mais, mas é um esboço. Sobretudo talvez fosse interessante, quando toda a gente propõe como as únicas medidas possíveis contra a crise aquelas que inundam a economia de dinheiro, apresentar um plano de saída destas medidas, as quais, a prazo, significam uma grande machadada na economia de mercado. Deve ser engano. Mas, quem sabe?

Compilação III

Setembro 28, 2009

Há um ano e meio, na saída de Menezes:

Muito barulho

(Publicado no jornal Meia Hora, 24/4/2008)

Afinal, talvez o mundo tenha subvalorizado Luís Filipe Menezes. Até quinta-feira passada ele era o bombo em quem toda a gente gostava de dar a sua pancadinha. De repente, provocou um verdadeiro terramoto político. Foi muito interessante constatar o pânico que encheu certas almas no seu próprio partido. Sem o saco de encher pancada, ficaram subitamente desprovidos de objectivo. Até quinta-feira, ele era uma espécie de usurpador que não merecia o lugar. Estava na hora de se ir embora. Quando se foi embora, cumprindo os desejos das ditas almas, passou a ser aquele que partiu de forma irresponsável.

Eis algo que não acontece por acaso. Até então, Menezes era acusado de tudo: de ser inconstante, de não ter programa, de defender isto e o seu contrário no espaço de 24 horas. Em suma, de ser vazio. A ideia implícita nestas acusações era a de que eles, os acusadores, sim, tinham programa. Mas quando Menezes se foi embora verificou-se que também eles eram vazios e que a única coisa que os enchia era encherem Menezes. Na realidade, com o seu gesto, Menezes confirmou o seu vazio, mas também revelou o dos outros. Já lá vai uma semana e ainda está para se ouvir uma ideia válida da parte daqueles que tanto o zurziram. E não é por falta de candidatos, que de um dia para o outro apareceram como cogumelos.

No PSD abunda o manobrismo e a remoção de tapetes. Falta é o trabalho que permita apresentar um programa político consistente. Esse trabalho não se faz andando por aí a bofetear o Menezes do dia mas antes estudando propostas. E há tanto por onde pegar: desde a reforma da despesa pública à reforma da segurança social, passando pela da fiscalidade e da administração pública, sem esquecer algumas ideias que ajudem a economia a sair da última década de marasmo, e muitas outras coisas que o espaço aqui não permite enumerar. Não admira que muitos votantes do PSD prefiram o PS de Sócrates. Pelo menos é o que as sondagens mostram: o PS mantém-se em torno dos 40%, enquanto a esquerda cresce (ou seja, foge do PS), chegando hoje aos 20% de votos. Só há um sítio onde o PS os pode ter ido buscar: ao PSD. Como as coisas se apresentam, é provável que assim continue a ser.

Compilação II

Setembro 28, 2009

Há um ano e meio:

Mudar de vida

(Publicado no jornal Meia Hora, 20/3/2008)

A pior maneira de olhar para a crise do PSD é pela perspectiva do “caciquismo”. Como se, de repente, o PSD se tivesse transformado numa enorme coutada de caciques, onde outrora reinava sabe-se lá que impoluta elite exclusivamente dedicada ao bem público. Não estamos aqui entre virgens imaculadas e, por isso, podemos falar claro: o caciquismo faz parte da vida de qualquer partido. Os partidos não são organizações de cruzados querendo impor à sociedade a pureza ideológica dos seus grandes princípios. Eles são também organizações de interesses, mais ou menos declarados, mais ou menos legítimos e mais ou menos benignos. Os caciques são mesmo essenciais ao funcionamento dos partidos: sem eles, a massa crítica de votos para ganhar eleições poderia nunca se formar. Todos os partidos os têm: o PS, o CDS, o PCP e mesmo aqueles irritantes puros do “Bloco” (um dos quais até se encontra a braços com a justiça em Salvaterra de Magos). Todos os países os têm: da América à Itália, passando pela França ou a Suécia.

O problema do PSD é a falta de uma ideia, de um plano, de um projecto (o que se lhe quiser chamar) eficaz para tomar o poder e exercê-lo de forma alternativa ao corrente governo. As redes de interesses a que se dá o nome de caciquismo são os partidos reduzidos à sua estrita dimensão funcional, uma espécie de esqueleto sem carne ideológica. É natural que essas redes não tenham aquela ideia ou plano. Mas alguém viu algum da parte daqueles membros do partido que o acusam de estar devolvido aos caciques? Dão-se alvíssaras. Será talvez altura de começar a suspeitar que não têm mesmo nenhum e que entre si e os “caciques” afinal não há qualquer diferença neste aspecto.

Perante o divórcio da “elite” com as “bases”, há quem comece já a sugerir o aparecimento de um novo partido da direita “respeitável” (Vasco Pulido Valente, por exemplo). Só que a direita “respeitável” sem as bases não é ninguém (e as bases sem os “respeitáveis” também não). O segredo do PSD sempre foi até agora o de ser um partido genuinamente popular enquadrado por uma elite social, económica e política que lhe conferia orientação. Os dois têm de encontrar maneira de voltar a entender-se. Ou então começar a pensar em mudar de vida.

Compilação I

Setembro 28, 2009

Na eleição de Menezes, há dois anos:

Moedas respeitáveis

(Publicado no jornal Meia-Hora, 4/10/2007)

Uma história engraçada é aquela que diz que há um PSD respeitável e um PSD não-respeitável. De acordo com ela, no sábado passado, a liderança do partido teria sido ganha pelo PSD não-respeitável. A história é engraçada, mas daí a ser verdadeira vai um passo grande. Não que não haja diferenças entre os considerados “respeitáveis” e os considerados “não-respeitáveis” do partido. Mas uns sempre precisaram dos outros (e vice-versa), e o PSD só é o que é graças aos dois. Sem os “não-respeitáveis”, os “respeitáveis” não passariam de um mero “partido de quadros” (como se dizia antigamente), ao estilo do antigo CDS. Sem os “respeitáveis”, os “não-respeitáveis” nunca vingariam em certos meios.

Esta sociologia um bocadinho tosca foi muito conveniente nos últimos anos para atribuir a “crise” do PSD ao progressivo predomínio dos “não-respeitáveis”. O auge da sua aplicação surgiu por alturas da famosa dicotomia entre a “boa” e a “má moeda”, que no fundo é a mesma divisão. De facto, foi extremamente cómodo lançar a lama toda sobre a “má moeda”. Mas tratava-se apenas de a usar como bode expiatório dos erros da “boa moeda”. Lembre-se que, imediatamente antes da “má moeda”, tinha governado (com estrondoso fracasso) a “boa moeda” – a qual, entretanto, foi reluzir lá para Bruxelas. A tábua de salvação da “boa moeda” consistiu, portanto, em culpar a “má moeda” pelo desastre, num momento de deslealdade partidária sem precedentes, iniciando uma “guerra civil” interna ao partido, que ainda não terminou.

Daqui resulta uma consequência interessante, que é a seguinte: verdadeiramente relevante não é o presumível predomínio da “má moeda”, mas sim perceber porque fracassou a “boa moeda” do PSD. Ora a “boa moeda” fracassou exactamente pelas mesmas razões que se atribuem à “má moeda” (e que efectivamente também se aplicam a ela): não ter uma ideia de governação (se excluirmos, claro, o corte e costura orçamental). A dicotomia entre a “boa e a má moeda” pode ser muito prática para a “boa moeda” salvar a pele, mas também é a melhor garantia de que o PSD continuará a ser irrelevante.

In grandma’s hands

Setembro 25, 2009

Transparente

Setembro 24, 2009

(Publicado no jornal Metro, 24/9/2009)

Começa tudo a ficar transparente. Perdida a hipótese de maioria absoluta com uma plataforma centrista, o PS optou pela dramatização da clivagem entre esquerda e direita. Daí a assunção tão clara das causas “fracturantes” e os convites à esquerda, alguns quase directos do Bloco de Esquerda. Daí também a súbita mansidão, e mesmo colaboracionismo, do próprio Bloco de Esquerda, talvez espreitando um papel especial (apalavrado?) num possível futuro governo ou parlamento. E daí a estratégia de confronto com o Presidente da República, não só tentando empurrá-lo para a direita como usando métodos de combate inéditos em Portugal, como se viu na última semana.

É uma estratégia de vitória garantida. Se das eleições de domingo sair uma solução de direita (previsivelmente frágil), a esquerda não lhe dará um minuto de descanso, ameaçando a sua viabilidade. O Presidente continuará a ser encostado à direita e as coisas só acalmarão quando essa solução for substituída. Se sair uma solução de esquerda (também frágil), o Presidente da República continuará a ser encostado à direita, continuará a ser provocado e passará a ser acusado de fautor da instabilidade governativa. A calma só regressará quando uma situação mais favorável for criada, se possível com um novo Presidente, agora bem de esquerda e obrigando Cavaco a recandidatar-se pela direita.

A estratégia defronta-se apenas com dois problemas. Por um lado, Cavaco não quer ser encostado à direita: por temperamento, mas também por necessidades de reeleição; por outro, no domingo há eleições e o soberano vai falar. E o soberano é imprevisível. Dependendo de qual seja o partido mais votado, das possibilidades de aliança e da respectiva solidez, vencerá a estratégia de polarização ou a de conciliação. Só assim se saberá qual o espaço de manobra deixado ao Presidente.

Se disto tudo ainda resultar uma democracia funcional podemos dar-nos por muito agradecidos.

Roleta portuguesa

Setembro 22, 2009

Anda muita gente cheia de pressa para condenar a Presidência e exigir-lhe responsabilidades. Calma… Creio que se esquecem de um detalhe: no domingo há eleições. E se, depois delas, Sócrates passar à História? Tudo isto não será senão uma barulheira, que o PS pode usar na oposição mas não terá o mesmo significado institucional actual. Claro que Sócrates pode não passar à História no domingo. Caso em que se inaugura uma bela época de pancadaria entre “órgãos de soberania”, como gostam de dizer os entendidos. O mais provável é que no domingo não apareça uma solução governativa estável. Será então o Presidente a deter as chaves do futuro imediato. Os concorrentes de domingo estariam então dependentes dele. É a roleta portuguesa. O pior é se a bala entra mesmo na cabeça de alguém…

Isto está bonito

Setembro 18, 2009

O passado e o presente

Setembro 18, 2009

(Publicado no jornal Metro, 17/9/2009)

Pela primeira vez desde há 22 anos (se exceptuarmos as quase maiorias absolutas de Guterres), Portugal arrisca-se a ficar sem maioria absoluta no parlamento e sem uma coligação funcional de dois partidos. Tem-se visto bastante gente desvalorizar o facto. Mesmo Manuela Ferreira Leite, no debate com Sócrates, considerou que “não era um drama” o PSD governar em minoria. Mas teve logo de acrescentar: “desde que o PS revele a mesma responsabilidade do PSD nos governos de Guterres”. Pois. Esse é o problema: a tentação de não “ser responsável”. Sobretudo da parte do PS, que (ao contrário) gosta de puxar dos pergaminhos radicais na oposição e dos da responsabilidade no poder.

Vale a pena lembrar os tempos anteriores a 1987: os governos duravam entre meses e meia legislatura; experimentou-se de tudo: governos minoritários de esquerda e de direita, alianças de direita, alianças da esquerda com a direita, governos de iniciativa presidencial, bloco central… Nada funcionou e tudo contribuiu para um sério descrédito da democracia. Já pouca gente se lembra, mas esses eram os tempos em que muita gente duvidava da sua viabilidade e pedia ao Presidente (à época, Eanes) para protagonizar uma mudança. Ele não se furtou e criou um efémero partido que efectivamente mudou a política portuguesa, o PRD, que no fundo esteve na origem das maiorias absolutas de Cavaco.

 Dir-se-á que os tempos são diferentes. Sim, sobretudo pelo lado da esquerda, que já não tem um modelo alternativo à democracia liberal para oferecer. Mas por outro lado nota-se por vezes um certo cansaço com o regime: a corrupção, as negociatas, os escândalos, a justiça politizada, o “são sempre os mesmos”. O Presidente aparece outra vez como reserva de credibilidade e ouvem-se rumores pedindo-lhe mais protagonismo. Digam o que disserem, um parlamento fragmentado é mais problemático e apela ao intervencionismo presidencial. Continua a ser preferível uma maioria absoluta ou uma coligação sólida.

Sorry

Setembro 15, 2009

Agora vejo que o outro Pedro fez mesmo um top 10, com top 4 de álbuns incluído. Sorry. Ando pouco assíduo a blogues… Pois eu álbuns é assim:

1 – The Beatles (mais conhecido por álbum branco)

2 – Revolver

3 – Rubber Soul

4 – Let It Be (Naked) (um dos poucos casos em que a reedição é melhor que o riginal)

5 – Magical Mystery Tour


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