Archive for Fevereiro, 2009

Ego-wrappin’

Fevereiro 27, 2009

Décadas perdidas

Fevereiro 27, 2009

(Publicado no jornal Meia Hora, 26/2/2009)

Tem-se estabelecido ultimamente um paralelo entre a actual situação económica mundial e a do Japão nos anos 90, a chamada “década perdida” japonesa. A crise tem origem semelhante: uma “bolha” imobiliária alimentada a crédito bancário que um dia rebentou. Inúmeros especialistas aconselham agora grandes programas de despesa pública e a redução da taxa de juro para que não haja uma década perdida global. Isto é muito interessante, pois foi precisamente assim que o Japão entrou na sua. Quando a bolha rebentou, o Banco do Japão reduziu a taxa de juro central até chegar a zero. Ao mesmo tempo, os governos multiplicaram os programas de “estímulo” público. Desde então até hoje, o Japão já acumulou mais de dez programas de estímulo, todos incapazes de resolver o problema e apenas com uma consequência clara: a explosão da dívida pública. De um dos países mais disciplinados em termos de contas do Estado, o Japão passou a ser o país desenvolvido com maior dívida pública (180% do PIB).

Engraçado é como aqueles que agora se desmultiplicam a sugerir programas de estímulo passaram os anos 90 a dar lições ao Japão. O Japão não tinha que andar a facilitar na política monetária nem a endividar-se descontroladamente, diziam eles. Tinha era de enfrentar o problema da desvalorização dos activos bancários, ou seja, limpar os bancos da dívida incobrável. Para isso, no fundo, tinha que reformar as suas instituições económicas, nomeadamente aquele “capitalismo patriarcal” que garante a circulação de pessoal e de interesses das mesmas famílias (Honda, Toyota, Mitsui, etc.) entre bancos, grupos económicos e Estado. O ponto de vista era o de ocidentais certos de que no Ocidente tal coisa não se verificaria, graças à transparência das nossas instituições económicas.

Pois não tiveram de esperar muito para se verem a engolir os seus próprios conselhos. De facto, por onde andam os arautos da transparência e da reforma? Logo agora que tudo indica serem mais precisos do que nunca. Se o Ocidente não tem o mesmo “capitalismo patriarcal”, tem o “capitalismo de bem-estar”. Foi ele que conduziu a uma também estranha ligação entre finança e Estado, com aquela a desempenhar o papel de financiador de programas sociais de habitação e consumo que agora se revelaram insustentáveis. Pelo caminho que as coisas estão a tomar, os países ocidentais não vão seguir os seus próprios conselhos. É mesmo capaz de ser uma década (ou mais) perdida(s).

The Gossip of Jaxx

Fevereiro 25, 2009

Anos 30 ou anos 70?

Fevereiro 25, 2009

(Publicado no jornal Meia Hora, 19/2/2009)

Houve no século XX duas grandes crises económicas internacionais, uma nos anos 30 e outra nos anos 70. Em ambas, os acontecimentos seguiram o mesmo padrão, que na actual crise se repete. Cada país começou a usar os instrumentos à mão para defender a economia nacional. Primeiro, manipularam a taxa de câmbio para embaratecer os seus produtos no mercado mundial, depois aumentaram a despesa pública, para fazer crescer o emprego, no passo seguinte ergueram barreiras alfandegárias para evitar a entrada de produtos estrangeiros. No final, desesperados, acharam-se a usar uma combinação de cada uma destas coisas, convencidos de estarem a combater a crise. A crise, curiosamente, recusava-se a ser combatida.

Para quem não reparou, este é o pacote “keynesiano”. Muitas pessoas se têm lembrado ultimamente de se auto-intitular “keynesianas”. Mas talvez fosse bom perceber que o keynesianismo é uma espécie de nacionalismo económico. No essencial, o que ele nos diz é que todos os instrumentos nacionais são legítimos contra o mercado mundial. Como o mercado mundial é constituído por outras economias nacionais, o keynesianismo é uma forma de guerra económica e comercial. Durante uns tempos pareceu existir grande auto-contentamento com a redescoberta do “keynesianismo”, que muitos dos seus partidários nem sabem muito bem o que significa. A crise era culpa do “neoliberalismo selvagem” e a solução estava no regresso do “Estado”, sob a forma suave do “keynesianismo”, já que ninguém teve coragem de ir desenterrar os comprovados desastres do “socialismo” propriamente dito. Ora, como a culpa não foi do neoliberalismo e como a crise resiste ao keynesianismo, tem havido algum retorno à modéstia.

A dúvida sobre a actual crise não é se existe ou não mas sobre quanto durará. Tanto nos anos 30 como nos 70, as receitas keynesianas e proteccionistas foram usadas, muito mais moderadamente na última do que na primeira. Mas em ambas, à medida que se usavam as ditas receitas, o crescimento lento e o desemprego também continuavam. A crise dos anos 30 resolveu-se em 1939 com a II Guerra Mundial; a dos anos 70, dez anos depois de começar, quando, depois de muita insistência e comprovada a incapacidade das receitas “keynesianas”, uma certa libertação da economia e da sociedade ocidentais lhes devolveu algum dinamismo. A segunda solução é certamente preferível à primeira. Se começarmos a fazer as coisas certas agora, talvez não tenhamos de esperar dez anos.

Cosplays

Fevereiro 20, 2009

Shinjuku calling

Fevereiro 19, 2009

ぉsちんtらんsぁちおn

Fevereiro 18, 2009

Assim se escreve Lost in Translation em japones.

O messias trapalhão

Fevereiro 13, 2009

(Publicado no jornal Meia Hora, 12/2/2009)

O ambiente mais próprio da chegada do Messias do que da eleição de um presidente não deixará muita gente ver, mas as primeiras semanas do mandato de Obama pouco menos têm sido do que um desastre. São já quatro os candidatos a membros da administração a ter de recusar o cargo por ilegalidades várias. Acresce a relação próxima do Presidente com o comprovado corrupto ex-Governador do Illinois: eis que destoa do padrão ético a ser supostamente introduzido em Washington pela nova administração. Mesmo se pode dizer-se que o presidente não sabia, trata-se de uma grande ineficiência no processo de escrutínio das condições de eligibilidade para cargos executivos. Como por cá se dizia há tempos: uma série de trapalhadas.

Depois houve a cláusula “comprar americano” no pacote de “estímulo” da economia, algo que por uns dias nos pareceu devolver aos tempos escuros da Tarifa Smoot-Hawley e do proteccionismo dos anos 30. É verdade que a cláusula lá foi retirada, mas para isso teve meio mundo de avisar que poderiam seguir-se retaliações desagradáveis. E convém estar atento: o bichinho proteccionista está lá; num ambiente mais tenso, é capaz de voltar.

Na política externa também vale a pena ficar preocupado. Para além da simbologia do encerramento de Guantánamo (inútil em termos práticos), o primeiro passo foi dar uma entrevista a uma televisão de capitais sauditas(!) estendendo a mão ao mundo árabe e ao Irão. A resposta não se fez esperar: no dia seguinte o Hamas atacou Israel e o Irão disse que sim, mas “exigiu” que os EUA pedissem desculpa por tudo o que fizeram nos últimos 60 anos. Seguiu-se a proposta de reduzir o arsenal nuclear em conjunto com a Rússia. Era aqui que a Europa ocidental devia entrar em pânico: trata-se da ameaça de estabelecimento de relações preferenciais dos EUA com a Rússia, curto-circuitando a Europa. Como quando, durante a II Guerra Mundial, Roosevelt preferiu dar espaço à expansão do Exército Vermelho pela Europa fora. De resto, a Rússia também enviou logo um sinal, mandando o Quriguistão fechar uma base americana.

Das duas uma: ou estamos perante a arrogância trágica de quem acha que vai reescrever tudo num quadro limpo quando não o pode fazer, ou então perante a apresentação da face mais agradável agora para depois, à vontade, melhor poder “malhar” (como diz um português ilustre). De uma forma ou de outra, não descansa ninguém. Enfim, ainda estamos no princípio. Entretanto, tudo pode mudar.

Boa cobrança

Fevereiro 11, 2009

Patrão da Jerónimo Martins classifica políticas de Sócrates de “demagógicas” e “intoleráveis”. Vejamos: não se pode  andar a pedinchar ajuda e depois esperar que o Estado se contenha dentro de certos limites. É a velha história do Fausto: quando se faz um pacto com o Diabo, mais tarde ele vem cobrar.

Toxedo

Fevereiro 11, 2009

Segundo o Público, o ministro das Finanças garante que os bancos portugueses não têm exposição aos activos tóxicos.

Gostava de saber porquê.


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