Archive for Janeiro, 2009

What a wonderful world

Janeiro 31, 2009

Depois de anos de uma cada vez maior integração económica, depois de anos de chineses a chegarem aos países da Europa, paquistaneses a chegarem a Inglaterra, mexicanos a chegarem aos EUA, ucranianos a chegarem a Portugal, vemos agora trabalhadores ingleses a manifestarem-se contra trabalhadores estrangeiros, trabalhadores gregos a atacarem trabalhadores  búlgaros, o Presidente dos EUA a pedir que os americanos “comprem produtos americanos”, vários países a protegerem os produtos nacionais. Já foi assim no mundo dos anos 30 do século XX. Não era isto que queriam os que não gostavam da globalização?

A segunda melhor opção

Janeiro 30, 2009

(Publicado no jornal Meia Hora, 29/1/2009)

É um mundo esquizofrénico: foram anos de conselhos morais sobre os excessos do consumo, o abismo do endividamento e as virtudes da poupança. Agora, governo atrás de governo implora-nos que continuemos a abusar do cartão de crédito e teme (imagine-se) que comecemos a poupar. Não se percebe: ao mesmo tempo que se condenam os excessos recentes, chovem os incentivos para que persistamos neles. Afinal era ou não mau o “consumismo”?

Ora, precisamente quando pessoas e bancos começam a procurar corrigir aqueles excessos (poupando mais e tornando os empréstimos mais caros) aparece o Estado endividando-se e subsidiando o endividamento das pessoas. É a ideia peregrina de que a despesa pública indiscriminada vai substituir a despesa privada. Alguém se lembra das palavras da actual ilustre líder do PSD, quando considerou o congelamento de salários da função pública a medida “mais estúpida do mundo”? Pois há aqui um sério rival a ocupar o lugar.

É verdade que neste momento a melhor opção para recuperar as economias está inviabilizada. Os salvamentos generalizados já não permitem distinguir entre quem sofre apenas de um natural aperto de liquidez dada a conjuntura e quem é estruturalmente insolvente. A selecção pelo mercado das empresas deixou de funcionar. Mas ainda há uma segunda melhor opção: conviria talvez começar por baixar impostos, para aumentar o rendimento disponível das pessoas e as margens das empresas. Diz-se que isso levaria à poupança, não estimulando a economia no imediato. Não necessariamente. A poupança é necessária. E não é igual a entesouramento. Na verdade, a poupança devolveria fundos aos bancos, o que lhes permitiria disponibilizar às empresas crédito para as suas reestruturações. Seria o regresso a uma certa sanidade no sector financeiro. Acresce que se as quebras de impostos forem entendidas como permanentes a poupança será menor. Depois, o Estado, em vez de se pôr a regar a economia com dinheiro barato, poderia começar a promover reestruturações sectoriais, deixando fechar empresas merecedoras desse destino, deixando sobreviver outras e promovendo fusões ou outras formas de reorganização. A despesa pública poderia então funcionar para o que deve: apoiar no desemprego daqui resultante. Não sendo o regresso do mercado para reorganizar a economia, sempre seria um substituto razoável. As primeiras reacções foram de pânico e criaram a miserável situação actual. Está na altura de sermos um pouco mais espertos.

P’rá frente Portugal

Janeiro 28, 2009

A única dúvida que tenho é a seguinte: o Prof. Freitas do Amaral corre sozinho a Belém e, portanto, tem de aparecer a sinalizar até que ponto está disponível para fazer fretes ao Governo? Ou é mesmo o possível candidato favorecido pelo Governo? Inclino-me mais para a primeira hipótese. O Governo também não está assim tão desesperado.

Na abertura do ano judicial

Janeiro 28, 2009

É o bordão dos últimos anos: “temos de ter uma justiça célere”. Por amor de Deus: já toda a gente percebeu que a justiça em Portugal é a continuação da política por outros meios. Estamos a chegar ao ponto em que quem nos governa é o tandem mágico jornalistas-Ministério Público, enviando recados daqui para ali e dali para aqui. Se há reforma da justiça a fazer é essa. Curiosamente, é a reforma do sistema político.

Sem fundo

Janeiro 28, 2009

Segundo julgo, um mínimo de sensatez obriga a que num empréstimo se faça o escrutínio da capacidade do beneficiário em pagar o que lhe foi emprestado. Quando pedi um empréstimo para a compra de casa tive de me sujeitar a ver os meus rendimentos vasculhados pelo banco. Neste momento são os bancos que me estão a pedir a mim emprestado, por via do Estado. E o engraçado é que ainda não me foi conferido o direito  (ou a um meu representante) de escrutinar as suas contas. Mais, se há coisa em que eles se têem especializado ultimamente é em tornarem as suas contas completamente incompreensíveis. Daí que o famoso plano de recapitalização dos bancos ingleses já tenha sido gasto e eles já andem a pedir mais. Daí que os limites das garantias dadas pelo Estado português aos bancos nacionais não tarde venham a ser revistos. Daí que um dos bancos indirectamente salvo pelo Estado (o BPP) apresente sérias suspeitas de actividades criminosas. Esta política de salvamento indiscriminado das instituições financeiras já era um disparate económico, como lançar dinheiro para um poço sem fundo. Agora, está literalmente a transformar-se num crime.

Quem sabe?

Janeiro 23, 2009

(Publicado no jornal Meia Hora, 22/1/2009)

Quer-me parecer que uma das ideias mais perniciosas para o PSD que ultimamente ganhou curso em certos círculos do partido foi a de que ele deveria voltar a adquirir “credibilidade”. O partido foi assim dividido em dois lados irremediavelmente opostos: os “credíveis” contra os “não-credíveis”. Claro que isto alienou uma enorme parte do PSD (a dos presumidos “não-credíveis”). Como julgam os “credíveis” contar com o apoio dos “não-credíveis” para batalhas como as próximas (e seguintes) eleições? Alguns dirão que não querem esse apoio. Mas então talvez se tenham enganado de partido.

Porque esta distinção faz pouco sentido por outros motivos mais profundos. Primeiro, vai contra a natureza do PSD, que sempre foi uma mistura de partido de “quadros” e de partido popular. Os “quadros” seriam os “credíveis”. Só que um partido exclusivamente feito de “quadros” corresponderia a uma espécie de duplicação do CDS, ou então a algo de parecido com um Bloco de Direita, um bocadinho menos ideológico. Já ninguém se lembra, mas Cavaco, nos seus tempos iniciais, fazia parte dos “não-credíveis”. Em segundo lugar, a distinção faz pouco sentido porque, na verdade, os “credíveis” já tiveram a sua hora e revelaram então muito pouca credibilidade. Os “credíveis” transformaram o Governo Santana Lopes em bode expiatório do seu fracasso de 2005. Mas o mal já vinha do Governo Barroso, quando o dito Barroso, numa das alturas mais difíceis do país, não resistiu a fugir das suas responsabilidades, depois de dois anos de governação no mínimo titubeante.

Deve ser engano, mas pareceu-me recentemente que Manuela Ferreira Leite terá começado a perceber isto: entregou a Santana Lopes a candidatura à câmara de Lisboa e, no outro dia, estendeu a mão a Passos Coelho. Parece também ter esboçado um princípio de programa alternativo (coisa que até agora ainda não tinha feito, provavelmente com excesso de preocupação em distinguir-se dos “não-credíveis” do seu próprio partido), ao opor-se com clareza ao TGV e sugerir uma redução de impostos. Em termos de programa seria talvez preciso mais, mas é um esboço. Sobretudo talvez fosse interessante, quando toda a gente propõe como as únicas medidas possíveis contra a crise aquelas que inundam a economia de dinheiro, apresentar um plano de saída destas medidas, as quais, a prazo, significam uma grande machadada na economia de mercado. Deve ser engano. Mas, quem sabe?

Fort Gitmo

Janeiro 23, 2009

Os crentes provavelmente ficarão satisfeitos com o simbolismo, sendo que muitos deles têm um jeito especial para varrer coisas para debaixo do tapete. Mas o que importa não é fechar Guantánamo por fechar. O que importa é saber o que fazer com quem lá está dentro. Ora, dos cerca de 250 presos, uns são efectivamente perigosos, outros suspeita-se que o sejam, outros não querem regressar aos países de origem porque serão torturados.

Enfim, é este o estado da “vergonha da humanidade”, do “gulag dos tempos modernos”. Muito provavelmente, daqui a uns anos, quando as “vítimas” de Guantánamo tiverem sido realojadas em Fort Leavenworth, com um estatuto jurídico idêntico ou parecido com o que têm hoje, já toda a gente se esqueceu deles. Já aconteceu com os nipo-americanos encarcerados por FDR. E já aconteceu com tantas outras vítimas dos bons, que não surpreenderia se voltasse a acontecer.

It’s simple

Janeiro 21, 2009

It’s simple, the UK has nothing to sell.

Inauguration day

Janeiro 20, 2009

O obamismo é a mesma caricatura que o anti-bushismo.

Ressurreições

Janeiro 18, 2009

Parece que é a ressurreição de Mickey Rourke. Mas, a avaliar pela musiquinha, parece ser também a de Bruce Springsteen, de quem já não se ouvia coisa propriamente de jeito vai para aí para um quarto de século.


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