Arquivo de Novembro, 2008

Tenham mesmo medo

Novembro 23, 2008

Tenham mesmo medo. Enquanto o país se entretém com os folhetins do BPN e da avaliação dos professores, os presidentes da administração do BCP e da Caixa Geral de Depósitos revelam, no suave ambiente daquelas conferências sobre a globalização que o Presidente da República organiza, que vão pedir garantias do Estado para contrair empréstimos, respectivamente, de cinco mil milhões de euros e dois mil milhões de euros. Para quem ande distraído, isto corresponde, para ajudar só dois bancos portugueses, a um valor proporcional à economia nacional (mais ou menos 4% do PIB) idêntico ao Plano Paulson para salvar o conjunto do sistema financeiro americano. Eu sei que um e o outro esquemas não são a mesma coisa. Mas, para um país que ainda há dias se vangloriava de atravessar com orgulhosa vela enfunada a crise internacional, dá uma noção das proporções. O país distrai-se com umas coisas, mas aquelas verdadeiramente importantes estão a ocorrer noutro lado. E certamente que não se ficarão por aqui.

Not an option

Novembro 21, 2008

Mais Estado?

Novembro 21, 2008

(Publicado no jornal Meia Hora, 20/11/2008)

Naturalmente, da cimeira do G-20 não resultou nada de espantoso, apesar dos anteriores anúncios grandiloquentes sobre a “refundação” da economia mundial. Para sermos justos, grande parte do seu efeito deveria ser (e foi) estritamente visual: ver aqueles líderes todos juntos afirmando estarem a combater a crise é um espectáculo de unidade que deverá devolver alguma confiança a toda a gente. E a confiança, como temos ouvido até à náusea, é muito importante para a economia. Em certo sentido, ainda bem que nada de especial resultou. Se alguma coisa aconteceu ultimamente foi uma sobrereacção à crise da parte dos governos. Em vez de intervenções criteriosas, eles optaram por encharcar o doente com todo o tipo de remédios na esperança de algum funcionar, mesmo não sabendo bem qual. Daqui resultou a ideia infeliz de que precisamos de mais Estado para enquadrar os mercados.

Já aqui tentei mostrar que não houve falta nenhuma de Estado nesta crise. O sector financeiro é o mais regulado dos sectores privados, é o mais próximo do Estado e aquele onde a promisucidade com o Estado é maior. Mais: o sector financeiro foi usado pelo Estado para prosseguir políticas que a situação dos orçamentos e das dívidas públicas já não permite com facilidade. Na origem desta crise está a tentativa de usar a inovação financeira para facilitar a compra de casas, “oferecer” crédito e difundir a propriedade e o consumo pelos estratos mais baixos da sociedade (e não foi só na América; basta pensar em Portugal). Ou seja: pede-se que o Estado “discipline” os mercados, mas aquilo a que assistimos nos últimos anos foi ao Estado a “indisciplinar” deliberadamente os mercados.

Quem defende mercados livres deve resistir à tentação (um pouco reminiscente dos comunistas da guerra fria) de dizer que o problema é que o “verdadeiro” liberalismo nunca foi aplicado: a URSS, Cuba ou a China não eram “bem” o comunismo, o que permitia sempre o investimento utópico em qualquer futura tentativa. Só que este é o capitalismo que temos, e a cocanha do liberalismo “puro” nunca virá. Haverá sempre intervenções do Estado e haverá sempre plutocratas promíscuos beneficiando da ponte entre público e privado. Mas apesar de tudo, os amigos dos mercados livres estão mais certos: o que faltou não foi Estado, mas a limitação das possibilidades daquele trânsito promíscuo. E é por aí que se tem de ir: se não é possível acabar com esse trânsito, devem limitar-se ao máximo os seus efeitos perniciosos.

Porque não?

Novembro 20, 2008

Por mais que me expliquem continuo sem perceber muito bem porque não poderia o BPP eventualmente falir. É pequeno e não tem peso “sistémico” (como agora se diz). A menos que a sua viabilização através da garantia estatal deva ser entendida como outra tentativa de dar mais uma “injecção de confiança” para evitar colapsos maiores. Ou seja, salva-se este como “sinal”, na esperança de não ter que salvar outros. Em qualquer dos casos, tudo isto parece um bocado preocupante. E não sei se vai resultar. Entretanto, o risco da dívida pública portuguesa galopa.

Ainda sobre a crise económica (ou como dela nos safarmos)

Novembro 18, 2008

Fireside chat with President Obama

Novembro 18, 2008

Ainda a grande coligação obamista

Novembro 16, 2008

Ontem, um fascinante programa de Larry King (sem o próprio). Os entrevistados eram o mayor de S. Francisco (a favor dos casamentos gay), um activista pelos casamentos gay, um pastor de não sei que igreja, negro e contra os casamento gay, e um pastor de não sei que igreja, branco e contra também. Para além da defesa de cada uma das posições dentro das linhas esperadas, o mais interessante foi o diálogo quase directo entre o pastor negro e o activista, que estavam ao lado um do outro no estúdio. O pastor dizia que qualquer comparação do fim da escravatura e dos movimentos pelos direitos civis com a causa dos casamentos gay era uma ofensa à luta dos negros pela sua libertação. Dizia mesmo que os activistas pelos movimentos gay tinham “capturado” ilegitimamente a memória dos direitos civis. O pastor dizia ainda que estávamos aqui perante uma decisão democrática: o povo que tinha votado no novo Presidente tinha também votado contra o casamento gay. Dizia ainda que os movimentos gay tinham voltado a usar o “n-word” (nigger, para quem não saiba) e que a campanha pelo casamento gay estava a adquirir contornos racistas, uma vez que tantos negros votaram contra o casamento gay. Por sua vez, o activista dizia que a decisão eleitoral não era relevante, porque os fundadores dos EUA não tinham querido instaurar no país a “mob rule” (o “governo da populaça”), e por isso tinham criado espaço para as decisões “iluminadas” dos juízes, independentemente de decisões populares. Os dois eram obamistas. Mas quem era de esquerda? E quem era de direita? Fascinante.

Tudo isto é muito estranho

Novembro 14, 2008

Bretton Woods II

Novembro 14, 2008

O soundbyte é “Bretton Woods II”. Mas por aquilo que se imagina que vai ser, ou por aquilo que muita gente pede para ser, parece que quase ninguém sabe o que foi Bretton Woods I. Bretton Woods I não foi concebido para voltar a regular os mercados comerciais, financeiros e cambiais internacionais. Foi concebido exactamente para o contrário: depois das derivas proteccionistas e isolacionistas dos anos 30 e depois da II Guerra Mundial, em que os mercados internacionais estavam completamente bloqueados, Bretton Woods foi desenhado para voltar a pôr os mercados a funcionar, libertando-os. Agora, pede-se o contrário: mais regulação e mais supervisão. O que é errado em mais do que um ponto de vista. Não falta regulação e supervisão nos mercados financeiros. Quando se diz por aí que os reguladores “se demitiram de regular”, o que temos visto não é bem isso. O que temos visto, a cada nova história que aparece, é o regulador conivente com as piores práticas, estimulando-as mesmo. Mais disto só pode ser mau. Não é com a conferência de Washington (apelidada de Bretton Woods II) que se vai resolver este problema. E também o mais provável é que nada saia de lá. De certa forma, ainda bem.

Voltar a falar a sério

Novembro 14, 2008

(publicado no jornal Meia Hora, 13/11/2008)

Como acontece ciclicamente, discute-se nos EUA (com glosas do lado de cá) se não terá sido criada uma nova maioria estável, aquilo a que por lá se chama um realinhamento (realignment). Desta vez, teríamos uma associação de “progressistas”, negros, hispânicos, jovens, trânsfugas republicanos e outras minorias (gays, por exemplo). Não tenho dúvidas de que ela ocorreu nestas eleições. Quanto a ser estável, parece-me por enquanto mero wishful thinking. É preciso esperar para ver.

Do que tenho menos dúvidas é que o realinhamento “reaganiano” se desfez. Já o havia feito durante os mandatos de Bush. E com ele desfez-se uma certa forma de unidade ocidental. Vendo bem, é estranho que Bush tenha sido o seu herdeiro. Pouca gente se lembra, mas Bush esteve para ser o presidente que iria retirar os EUA do mundo (inclusivamente da Europa). Terminadas as responsabilidades da guerra fria, cabia aos antigos protectorados andarem por si: a Europa, por exemplo, que se responsabilizasse pela sua defesa. Mas veio então o 11 de Setembro, e Bush socorreu-se da narrativa que tinha mais à mão: a do Ocidente ameaçado, para a defesa do qual todos deviam contribuir, sob liderança americana. Para sua surpresa e de muita gente, a narrativa não colou. O que bastou para ele ir ficando cada vez mais sozinho: depois dos genuínos anti-bushistas, seguiram-se os ratos abandonando o navio (sobretudo vindos dos tradicionais apoiantes dos EUA), à medida que a sua difícil política se complicou. Até chegarmos à caricatura dos últimos quatro anos: qualquer assunto tinha uma resposta, a culpa era de Bush – o Irão nuclear, a crise económica, o aquecimento global… Cheguei a temer que fosse acusado de ter inventado a angina de peito e o óleo de rícino.

As partes do realinhamento reaganiano andam por aí disperas em busca de uma narrativa. Mas para algumas essa narrativa é capaz de chegar mais cedo do que julgam. Antigas solidariedades quebraram-se de vez, mas isso liberta de compromissos incómodos e abre portas para novas solidariedades. E o desaparecimento do fardo de Bush também ajuda.

Não terei saudades do tempo de Bush. Não necessariamente pelo próprio, com quem tive acordos e desacordos essenciais. Mas pela quantidade de pessoas que se permitiu ser profundamente estúpida enquanto ele lá esteve. O estúpido argumento de que é tudo culpa do estúpido de Washington acabou. Está na altura de voltar a falar a sério.