(Publicado no jornal Meia Hora, 25/9/2008)
Tem sido um espectáculo glorioso. Gestores, economistas, jornalistas financeiros, outrora tão cheios de auto-suficiência, vangloriando-se das suas proezas na selva cruel da finança, andam por aí praticamente a chorar implorando ao Estado que os salve. Não vale a pena dizer-lhes que se trata de premiar a irresponsabilidade e a imprudência. Pois, pois, a imprudência, mas onde é que está o dinheirinho? Não vale a pena lembrar-lhes os riscos inflacionários (e outros) destas medidas. Sim, a inflação, mas o que é a inflação quando se trata da própria sobrevivência do capitalismo, da civilização ocidental – e onde é que está o dinheirinho? Se eu soubesse que o capitalismo e a civilização ocidental estavam dependentes de semelhantes heróis já há muito que teria encomendado a alma ao Criador.
É bastante simples: de cada vez que um deles se lembrar de explicar que temos de baixar a despesa pública; de cada vez que se lembrar de sugerir uma reestruturação industrial que envia milhares de pessoas para o desemprego; de cada vez que sugerir contenção salarial, em nome do crescimento económico; de cada vez que explicar que o melhor é privatizar a segurança social e entregar-lhe as poupanças para um fundo de pensões; vamos todos rir-nos um bocado e depois pedir-lhe que vá brincar com o seu computador comprado no e-bay dos salvados da Lehman Brothers. Até se pode admitir que o resgate do sistema financeiro americano tenha de ser feita à conta das intervenções e dos gastos do Estado. Mas a partir de agora dispensamos as lições de liberalismo e virilidade, pelo menos da parte deles. Fora das torres de vidro dos bancos de investimento também há muita gente defendendo a liberdade dos mercados, que não ganhou nem um milionésimo do que eles ganharam e que, quando as coisas correram mal, assumiram as suas responsabilidades.
Claro que a culpa é tanto sua quanto de um Estado que lhes pediu que montassem um esquema capaz de gerar crescimento económico, casas baratas e consumo a crédito ao preço da uva mijona. Mas ser cúmplice de um crime não iliba ninguém. É também claro que o capitalismo continuará, graças ao engenho e à iniciativa de empresários e trabalhadores que desenvolvem as suas actividades e estão dispostos a assumir os benefícios dos riscos, mas também as suas consequências negativas. Mas não serão esses a ameaçar o capitalismo.