(Publicado no jornal Meia Hora, 27/3/2008)
Os bancos centrais do mundo ocidental continuam a dar sinais de estarem dispostos a usar de quase todos os meios para salvar o sistema financeiro. Não há semana em que não injectem liquidez e até já salvaram explicitamente dois bancos que ameaçavam falência (o Northern Rock, há uns meses, em Inglaterra, e o vetusto Bear Sterns, ainda a semana passada, nos EUA). Estamos aqui naquela dimensão vagamente mística da economia e das finanças em que o fito é devolver “confiança” aos mercados.
O que se passa é mais simples do que parece. A origem do problema está nos empréstimos hipotecários a pessoas de rendimentos baixíssimos feitas por determinadas instituições americanas (o agora célebre mercado “subprime”). Mas a amplificação do problema tem outra raiz. É que, numerosos bancos por esse mundo fora aceitaram as garantias dadas pelas tais instituições como boas, e depois numerosos outros bancos, por sua vez, aceitaram as garantias dadas pelos primeiros como boas, e por aí fora numa espécie de grande cebola de garantias sobre garantias. Ou seja, a recente expansão do sistema financeiro internacional baseou-se na capacidade de pagamento das mais pobres famílias americanas.
Agora, os bancos têm medo de não ver ressarcido o crédito que fizeram confiando nas tais frágeis garantias. E os bancos centrais tomam as vezes daqueles que não conseguem pagar. No entanto, por muito reconfortantes que sejam estas medidas, estamos a falar aqui de acções exemplares. É como se os bancos centrais dissessem: “não se preocupem, não deixaremos ninguém afogado neste mar de dívidas”, embora saibam que não podem garantir a salvação de toda a gente. No fundo, o que esperam é que, ao salvarem um banco, os outros todos confiem que vão ser salvos, mesmo sabendo que isso não é verdade. É a tal dimensão mística: dão um exemplo e depois rezam para que ele tenha sido bem escolhido. Só que há um limite para isto, a menos que queiramos entrar numa espécie de regime inflacionário latino-americano. Até agora, o sistema vem-se aguentando. O problema aparecerá no dia em que o Banco de Inglaterra, o Fed ou o BCE não salvem o primeiro banco. Mais vale rezarmos juntamente com os bancos centrais para não vermos esse dia chegar.





