(Publicado no jornal Meia Hora, 14/2/2008)
Se algum mérito as declarações do bastonário da Ordem dos Advogados sobre a corrupção tiveram foi o de porem o país a falar sobre o assunto. Uns reagiram com uma snobeira algo cretina, outros mostraram um incómodo um pouco suspeito (“é preciso provas”), mas houve quem reagisse positivamente, lembrando que ele apenas disse “aquilo que toda a gente sabe”. Talvez ainda valha a pena dizer mais algumas coisas, uma óbvia, outras menos.
A óbvia é que a corrupção sempre existiu e existirá. O perigo de declarações como a do bastonário, muito parecidas com o espírito popular segundo o qual “são todos uns malandros” e “andam todos ao mesmo”, é acreditar que, com “coragem”, vamos “limpar o sistema”. Não vamos. Parece que há quem ache que, prendendo os corruptos, o sistema político desbloqueia. Por mim, não creio. A corrupção é mais complicada do que se julga, dependendo até da definição do que é ilícito. Nos países anglo-saxónicos, algumas actividades que nós vemos como tal não são consideradas como corrupção. Opta-se aí pela transparência: desde que declarados, certos actos apenas clarificam as acções de políticos e empresários.
Depois, vale a pena olhar para o que aconteceu a um país onde, há cerca de quinze anos, se viveu um verdadeiro furacão anti-corrupção. Em Itália, a seguir à operação “Mãos Limpas” de 1992, a denúncia da classe política, administrativa e empresarial foi generalizada. Milhares de notáveis acabaram presos ou acusados. Mas o principal efeito não foi judicial e sim político. Houve praticamente uma revolução. Foram-se a Democracia Cristã, o Partido Socialista e o Partido Comunista e nasceram uma série de estranhos partidos e movimentos, cuja definição ainda não acabou. Também em Itália se julgou desbloquear o sistema político. Em vez disso, o caos sistémico permanece, como prova a mais recente crise. O grande efeito foi erradicar uma classe política e dar outra a nascer, pois a corrupção por lá continua e a disfuncionalidade política também.
A ideia da regeneração dos sistemas políticos pelo combate à corrupção tem quase tantos perigos quanto a própria corrupção. É claro que vale a pena combatê-la, mas também é preciso cuidado com as sombras políticas que se projectam a partir daí.