(Publicado no jornal Meia Hora, 7/2/2008)
Quem julgasse que certas querelas históricas nacionais estivessem ultrapassadas, não pode ter deixado de surpreender-se com o bruaá levantado no país nas últimas semanas a propósito da memória do regicídio.
Somos um país curioso em matéria de efemérides. Desde 1974 que apenas uma data parece definir a origem do país, o 25 de Abril. Depois de terem sido recuperados do baú da História pelo liberalismo, pela República e pelo Estado Novo, acontecimentos como a fundação de Portugal, Aljubarrota ou 1640 (apesar do feriado), não são vistos como efemérides (e também não são motivo de reflexão histórica fora da academia). O mesmo acontece, aliás, com a instauração do liberalismo ou da República. A maior parte destes eventos são demasiado distantes ou politicamente incorrectos (a luta contra os muçulmanos ou contra os “espanhóis” já não fica bem na memória de ninguém) e outros não “soam” bem (é o caso do “liberalismo”, que se parece demasiado com “neoliberalismo”) ou dividiram demais o país (como a I República). 1974 fundou de novo o país, desta vez sob a forma de um país-valor. Portugal desde 1974 é a democracia. Para trás fica um amontoado incoerente de acontecimentos, que nada parecem ter que ver connosco. Excepto, pelos vistos, quando voltamos ao século XX. Aí reaparece o século XX “feio, porco e mau”, do regicídio, das violências da I República, da Ditadura Militar, do salazarismo ou até do PREC. A avaliar pelo que se passou nos últimos dias, ainda não o ultrapassámos.
Por muito empobrecedor que seja resumir a nossa memória histórica praticamente ao 25 de Abril, é uma data com vantagens, sobretudo em conjugação com o fim do PREC. A junção permite à esquerda e à direita mostrar o seu melhor lado: a esquerda (com quem, bem ou mal, provavelmente mal, o 25 de Abril está associado) pode reivindicar o fim de uma ditadura; a direita, o facto de ter impedido a esquerda de fazer uma nova ditadura em 1975. Eis a aproximação a uma espécie de consenso nacional (e mesmo assim todos os anos ainda há umas quezílias mais ou menos inócuas). É pena que assim seja, pela falta de maturidade que revela em lidar com o passado e pelo empobrecimento do horizonte histórico. Mas a verdade é que quando saímos daqui parece que voltamos à guerra civil larvar do nosso século XX.