Arquivo de Janeiro, 2008

A crush on Obama

Janeiro 8, 2008

 

É grande o entusiasmo que a candidatura do senador americano Barack Obama está a provocar. Na América, certamente, mas também em países muito diferentes, tipo Portugal. Por exemplo, os meus amigos da Atlântico já confessaram a sua “excitação” com o homem. Eles lá sabem com o que se excitam… A mim, precisamente o que me parece interessante em Barack Obama é o facto de as suas ideias serem muito pouco excitantes. O êxito da candidatura de Barack Obama é importante apenas por um facto (talvez dois, v. mais abaixo), e logo o mais óbvio: a raça. Obama é um candidato negro que não usa um programa de vitimização da condição negra.

Do folclore da esquerda faz parte a ideia de que o Ocidente, e a América como epítome do Ocidente, são racistas na essência. Dada a oportunidade, o racismo logo emergiria do estado latente. É verdade que os negros se encontram em média no fundo da tabela de quase todos os indicadores sociais americanos. No entanto, trata-se sobretudo de uma desgraça auto-infligida. As portas estão abertas a toda a gente nos EUA. Mas os negros americanos têm vivido o último meio século (basicamente desde o fim do Jim Crow) numa cultura de auto-guetização, de recusa do “sistema”, de racismo contra o “branco” (e mais recentemente o “asiático”). Se há hoje racismo em massa nos EUA é produzido pelos negros. O interesse de Obama vem precisamente do facto de abandonar estes bordões típicos da lamentável cultura vitimista negra americana. Tirando isto, ele é um candidato muito desinteressante: quer aumentar os impostos, quer alargar o sistema de saúde público e pouco mais.

O segundo aspecto em que a candidatura de Obama é interessante é a política externa. Obama é (na linguagem que entretanto se tornou convencional) um “falcão”, que acredita no papel messiânico da América. Ele é contra a guerra do Iraque, mas não contra o intervencionismo militar americano no estrangeiro. Obama até já propôs o bombardeamento das zonas tribais do norte do Paquistão para combater os taliban e a al-Qaeda, algo que o pobre “do Bush” nunca ousaria fazer sem cair o Carmo e a Trindade.

Por tudo isto, o interesse de Obama esgota-se rapidamente. Uma vez dado por adquirido que um candidato negro pode candidatar-se e ganhar, dever-se-ia rapidamente esquecer o facto e passar a avaliar as suas propostas. A melhor homenagem que se pode fazer ao esforço louvável de Obama é esquecer o facto de ele ser negro. Acarinhá-lo e, depois, pedir que ganhe John McCain.

O caso das criancinhas desaparecidas

Janeiro 6, 2008

Gosto muito de Caldas da Rainha. É uma terra muito bonita que tem um parque muito catita. Com cisnes. Os cisnes passeiam-se devagar pela água do lago. As criancinhas correm brincam nas áleas do jardim. Se os cisnes trocassem com as criancinhas e viessem patinhar no seu andar baloiçado para o jardim, as criancinhas podiam (sem o perigo de em tal convívio aprenderem a grasnar) passear então no lago, o que lhes era um prazer, julgavam. As que soubessem nadar ou tivessem bóia adequada à cintura, vogavam. As outras iam logo ao fundo e nunca mais ninguém as via porque o lago tem um abismo que dá para a vala-comum. Por isso, às vezes, quando os cisnes sobem a terra, muitas muitas criancinhas descem ao fundo, vão parar à Lagoa de Óbidos pelos esgotos da cidade e dali ao vasto mar. Se meninas, transformam-se em sereias; se rapazes, em rochas modeladas, em duros querubins. Esta a razão por que nos roteiros turísticos lá vem indicado a normando que Caldas da Rainha é a terra onde desaparecem mais criancinhas. Todos os forasteiros o sabem; os indígenas é que fingem disfarçar.

Gosto muito de Caldas da Rainha. É uma terra muito bonita com um parque muito catita. Ah, também tem uma mata muito bonita com plátanos, mas fica mais acima. Tem uma igreja muito velha. Tem gente muito velha como todas as terras de província e gente que parece gente. Gosto muito de passear no parque das Caldas. Tem árvores flores um cinema muito velho um museu quase novo. Caldas da Rainha tem uma grande categoria: é a terra onde melhor se caga porque é a terra onde melhor se come. Vem mesmo gente de muito longe (de Lisboa, de Setúbal, das Frâncias, das Alemanhas e doutros lados muitos) para experimentar. Às vezes, comem mal e por vingança vão cagar a outro sítio; nessas altura, os caldenses ficam muito tristes muito (direi?) quase envergonhados e ou melindrados porque o segredo da abundância e excelente qualidade das produções hortícolas e frutíferas das jeiras dos arrabaldes que abastecem o mercado é a alta muito qualidade dos estrumes caldenses. Os caldenses quando cagam guardam a merda toda na cabeça e só a despejam para uns caldeirões que os matarroanos vêm depois buscar em carrocitas puxadas à mão ou por gericos quando está a abarrotar e algum turista de passagem repara nisso.

Gosto muito de Caldas da Rainha. Ali me confessei comunguei crismei guiado sugestionado engodado por cavacas e trouxas d’ovos pela mão terna e fanática de uma velha que usava pêra e bigode. Era horrorosa. Achava-me bonito. Coitada, já morreu (antes ela que eu). Ali aprendi a andar de bicleta empurrado amparado pela mão ainda firme do meu Pai que era baixinho careca e usava capachinho e muito meu amigo, coitado já morreu (antes ele que eu).

Gosto muito de Caldas da Rainha. É uma terra, etc. [...]

 Luiz Pacheco, “O caso das criancinhas desaparecidas”, Exercícios de Estilo.

The Lowe life

Janeiro 3, 2008