(Publicado no jornal Meia Hora, 10/1/2008)
O assassinato de Benazir Bhutto foi um grande golpe nos projectos de estabilização do Médio Oriente. Depois da guerra do Iraque ganhou curso nos países ocidentais (mesmo entre as pessoas mais idealistas) a ideia de “realismo” nas relações internacionais. Os problemas americanos mostrariam a necessidade de abandonar grandes planos de democratização e de negociar com ditadores locais, desde que evitassem a expansão do radicalismo islâmico – era esse o recado do famoso Relatório Baker, recebido com unanimidade no Ocidente.
É estranho que assim seja, já que a tradicional política ocidental no Médio Oriente sempre foi a “realista”, sem que se possa falar em bons resultados. No Paquistão, por exemplo, nunca se abandonou o “realismo”. Musharraf foi eleito como aliado dos EUA na sequência do 11 de Setembro e entendido como um bastião contra os taliban e o terrorismo islâmico em geral. No entanto, o radicalismo expandiu-se, e muito, sob a complacência do exército, dos serviços secretos e do poder político em geral. O Paquistão ilustra os ambíguos resultados da política “realista”, que se repete noutros países. O que acabou por se verificar ao longo dos anos no Paquistão foi uma estranha aliança, mascarada de conflito, entre o poder político e militar, de um lado, e o radicalismo islâmico, do outro: aquele poder encontra-se completamente infiltrado por este radicalismo. E um justifica-se pelo outro. Musharraf apresenta-se como a barreira ao radicalismo, ao mesmo tempo que promove o crescimento desse radicalismo para melhor justificar a necessidade do seu próprio poder.
Dir-se-á que a solução talvez fosse a “democratização” do Médio Oriente. Mas eis algo que, para além das extraordinárias dificuldades envolvidas, se encontra bastante desacreditado depois da incapacidade do Ocidente para se unir em torno do projecto iraquiano (que era também um projecto de democratização da região). Embora a situação no Iraque tenha melhorado muito, não parece pois haver alternativa ao “realismo”. Só que ele tem custos, como se viu no 11 de Setembro e agora na morte de Bhutto. A única coisa que se pode pedir é que o Ocidente saiba lidar com eles da melhor maneira possível. Como? Isso é que não se sabe.