É grande o entusiasmo que a candidatura do senador americano Barack Obama está a provocar. Na América, certamente, mas também em países muito diferentes, tipo Portugal. Por exemplo, os meus amigos da Atlântico já confessaram a sua “excitação” com o homem. Eles lá sabem com o que se excitam… A mim, precisamente o que me parece interessante em Barack Obama é o facto de as suas ideias serem muito pouco excitantes. O êxito da candidatura de Barack Obama é importante apenas por um facto (talvez dois, v. mais abaixo), e logo o mais óbvio: a raça. Obama é um candidato negro que não usa um programa de vitimização da condição negra.
Do folclore da esquerda faz parte a ideia de que o Ocidente, e a América como epítome do Ocidente, são racistas na essência. Dada a oportunidade, o racismo logo emergiria do estado latente. É verdade que os negros se encontram em média no fundo da tabela de quase todos os indicadores sociais americanos. No entanto, trata-se sobretudo de uma desgraça auto-infligida. As portas estão abertas a toda a gente nos EUA. Mas os negros americanos têm vivido o último meio século (basicamente desde o fim do Jim Crow) numa cultura de auto-guetização, de recusa do “sistema”, de racismo contra o “branco” (e mais recentemente o “asiático”). Se há hoje racismo em massa nos EUA é produzido pelos negros. O interesse de Obama vem precisamente do facto de abandonar estes bordões típicos da lamentável cultura vitimista negra americana. Tirando isto, ele é um candidato muito desinteressante: quer aumentar os impostos, quer alargar o sistema de saúde público e pouco mais.
O segundo aspecto em que a candidatura de Obama é interessante é a política externa. Obama é (na linguagem que entretanto se tornou convencional) um “falcão”, que acredita no papel messiânico da América. Ele é contra a guerra do Iraque, mas não contra o intervencionismo militar americano no estrangeiro. Obama até já propôs o bombardeamento das zonas tribais do norte do Paquistão para combater os taliban e a al-Qaeda, algo que o pobre “do Bush” nunca ousaria fazer sem cair o Carmo e a Trindade.
Por tudo isto, o interesse de Obama esgota-se rapidamente. Uma vez dado por adquirido que um candidato negro pode candidatar-se e ganhar, dever-se-ia rapidamente esquecer o facto e passar a avaliar as suas propostas. A melhor homenagem que se pode fazer ao esforço louvável de Obama é esquecer o facto de ele ser negro. Acarinhá-lo e, depois, pedir que ganhe John McCain.