Archive for Janeiro, 2008

O filho pródigo

Janeiro 25, 2008

(Publicado no jornal Meia Hora, 24/1/2008) 

Foram muitas, nas últimas semanas, as oportunidades fotográficas para mostrar o Presidente Bush entre beduínos: um homem impecavelmente vestido com o tradicional fato ocidental de duas peças, sorrindo e beijando na face uma sucessão de árabes de keffieh. Bush repetia o périplo de qualquer presidente americano junto dos monarcas do Golfo Pérsico, os grandes fornecedores de petróleo da América desde os anos 30. A novidade estava no facto de o fazer apenas à última da hora, quando está prestes a sair. Eis o mais claro sinal do realinhamento “realista” da política externa dos EUA.

Bush começou o seu segundo mandato promentendo “estimular o crescimento de instituições democráticas em qualquer nação e cultura, com o propósito último de acabar com a tirania no nosso mundo”. Em vez de cortejar monarcas semi-despóticos, velhos aliados da América, desprezou-os. Lançou-se no projecto de “democratização” do Médio Oriente, esperando que o Iraque desse o exemplo. Agora, como um adolescente incapaz de lidar com a sua própria rebeldia, regressou a casa e (tal como o filho pródigo) foi bem recebido. Como dizia um jornalista saudita durante a visita de Bush ao reino, “é uma pena, na realidade uma tragédia, que Bush tenha decidido visitar-nos no seu último ano na presidência. Imagine-se o que teríamos conseguido fazer em 2002” – antes do Iraque, note-se. O novo “realismo” chegou mesmo ao ponto de o Presidente tirar da cartola o truque definitivo para ficar bem na fotografia: mais um plano de paz para o conflito israelo-árabe. São já sessenta anos de planos, sem qualquer êxito. Como já toda a gente percebeu, os ditos planos visam precisamente nunca resolver o conflito.

É interessante que o novo “realismo” surja numa altura em que o Iraque melhora muito. John McCain reapareceu como favorito nas primárias porque a ele deixou de estar associado o aspecto negativo da guerra do Iraque, que sempre apoiou. Mas a guerra do Iraque, como se costuma dizer, não tem solução militar. Mesmo que seja ganha militarmente, foi perdida politicamente há já muito tempo no mundo ocidental. Mesmo que o Iraque se “democratize”, a “democratização” do Médio Oriente acabou. A normalidade, para o bem e para o mal, está de volta.

Se bem me lembro

Janeiro 18, 2008

São, sem qualquer dúvida. Mas são porque também são uma obra-prima literária. Economia e Sociedade, de Max Weber, também é uma obra-prima da sociologia e da ciência política. Mas é uma chatice pegada. Não é o caso dos Souvenirs.

Once we were young©31

Janeiro 18, 2008

 Once we were young©31:

Acho que nunca abandonou Reykjavik.

Sorte ou azar?

Janeiro 18, 2008

(Publicado no jornal Meia Hora, 17/1/2008)

Talvez seja sorte. Pelo menos para o governo. Com a crise económica a perfilar-se no horizonte e os bancos centrais em dificuldades para baixarem taxas de juro (por causa dos ameaços de inflação) vêm aparecendo pelo mundo fora ideias de estímulo à economia por via orçamental. Como Portugal não define autonomamente a política monetária e a entidade europeia que a define, o BCE, gosta de comportar-se como um verdadeiro “falcão” anti-inflacionista, talvez não escapemos à onda. É sorte para o governo porque para o ano há eleições e crescerá a tendência para oferecer rebuçados que aliviem as dificuldades dos eleitores, como por exemplo uma quebra nos impostos ou um certo relaxamento na disciplina da despesa. Não surpreenderá que ao longo deste ano se vá formando um consenso para estimular a economia por qualquer uma daquelas vias, coisa que o governo não desperdiçará.

Mas talvez também seja azar. Pelo menos para nós todos. O abrandamento na disciplina orçamental quando ainda nos encontramos a meio de um programa de estabilização significa que o programa ficará incompleto. Verdade se diga que ele nunca seguiu os melhores caminhos. Esse programa nunca assentou numa revisão profunda dos mecanismos que mais criam inércia no crescimento da despesa, como a Segurança Social, o SNS ou a administração pública. Todos estes campos foram tocados pela acção do governo, mas em todos eles se ficou pelas meias medidas, o que deixou o potencial de crescimento da despesa pública no futuro, se não completamente, pelo menos parcialmente inalterado. Como já se sabe, o grande contributo para a estabilização veio do aumento dos impostos e de uma melhor (há quem diga que por vezes abusiva) cobrança.

Com tudo isto chegamos a uma triste situação. Depois de anos penalizados por uma política fiscal agressiva, que abrandou o crescimento e pesou nos orçamentos de todos, eis-nos nas vésperas de uma possível crise económica, que poderá obrigar a desfazer o que foi realizado. E o que foi realizado acabou por ser pouco. Dizendo que reformava imenso, o governo não reformou grande coisa, e ao fazê-lo fez-nos perder anos. Anos de tudo: de crescimento, de tolerância para com medidas difíceis e de capacidade futura para as realizar.

Sapienza e tolleranza

Janeiro 14, 2008

Do not enter.

Race to the bottom

Janeiro 14, 2008

Porque é que a mafia adora o lixo.

¿Por qué no me callas, Naomi?

Janeiro 14, 2008

Eu não disse?

Os Tatas

Janeiro 12, 2008

Em 1907, Jamshed Tata, o dono de uma forja de aço, realizou um volumoso investimento permitindo-lhe construir uma fundição em Jamshedpur, na então província de Bihar. Assim criou a Companhia de Ferro e Aço Tata. Tratava-se, na altura, de boicotar produtos ingleses. A companhia transformou-se numa das maiores do mundo. A família Tata tornou-se uma das mais ricas da Índia e um dos principais apoios financeiros do Partido do Congresso, o que foi pago depois da independência com a reserva do mercado nacional. Ontem, um dos descendentes de Jamshed, Rana Tata, deu à Índia o seu Ford T e ao mundo um dos mais importantes veículos de poluição. É o Tata Nano, o carro mais barato do mundo (1.500 euros: i.e. 300 contos antigos), vai ser comprado por todo o indiano e vai lançar muito CO2 na atmosfera.

Das soluções ou da falta delas

Janeiro 11, 2008

(Publicado no jornal Meia Hora, 10/1/2008)

O assassinato de Benazir Bhutto foi um grande golpe nos projectos de estabilização do Médio Oriente. Depois da guerra do Iraque ganhou curso nos países ocidentais (mesmo entre as pessoas mais idealistas) a ideia de “realismo” nas relações internacionais. Os problemas americanos mostrariam a necessidade de abandonar grandes planos de democratização e de negociar com ditadores locais, desde que evitassem a expansão do radicalismo islâmico – era esse o recado do famoso Relatório Baker, recebido com unanimidade no Ocidente.

É estranho que assim seja, já que a tradicional política ocidental no Médio Oriente sempre foi a “realista”, sem que se possa falar em bons resultados. No Paquistão, por exemplo, nunca se abandonou o “realismo”. Musharraf foi eleito como aliado dos EUA na sequência do 11 de Setembro e entendido como um bastião contra os taliban e o terrorismo islâmico em geral. No entanto, o radicalismo expandiu-se, e muito, sob a complacência do exército, dos serviços secretos e do poder político em geral. O Paquistão ilustra os ambíguos resultados da política “realista”, que se repete noutros países. O que acabou por se verificar ao longo dos anos no Paquistão foi uma estranha aliança, mascarada de conflito, entre o poder político e militar, de um lado, e o radicalismo islâmico, do outro: aquele poder encontra-se completamente infiltrado por este radicalismo. E um justifica-se pelo outro. Musharraf apresenta-se como a barreira ao radicalismo, ao mesmo tempo que promove o crescimento desse radicalismo para melhor justificar a necessidade do seu próprio poder.

Dir-se-á que a solução talvez fosse a “democratização” do Médio Oriente. Mas eis algo que, para além das extraordinárias dificuldades envolvidas, se encontra bastante desacreditado depois da incapacidade do Ocidente para se unir em torno do projecto iraquiano (que era também um projecto de democratização da região). Embora a situação no Iraque tenha melhorado muito, não parece pois haver alternativa ao “realismo”. Só que ele tem custos, como se viu no 11 de Setembro e agora na morte de Bhutto. A única coisa que se pode pedir é que o Ocidente saiba lidar com eles da melhor maneira possível. Como? Isso é que não se sabe.

Para quem não percebeu a piada

Janeiro 8, 2008

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