(publicado no jornal Meia-Hora, 13/12/2007)
Têm-se multiplicado as denúncias de práticas arbitrárias da administração fiscal. Muita gente diz que se trata do preço a pagar pela sua maior “eficiência”. Enquanto antigamente, na dúvida, prevalecia a evasão, agora prevalece o poder de cobrança. É que há um efectivo poder acrescido para cobrar dívidas reais. O que até já deu origem ao culto de um novo herói nacional, Paulo Macedo. As duas faces da história parecem ser verdadeiras: há melhor cobrança, mas (sendo os meios o que são) há continuação de ineficiência, tendo-se apenas invertido o ónus da suspeição.
Claro que não estamos perante nenhuma perfídia do Estado, mas do eterno problema do défice: as receitas acrescidas têm permitido manter o défice dentro dos limites prometidos. Só que há dois problemas a este respeito. Um é que, graças ao aumento desta pressão fiscal (o que inclui também aumentos das taxas de alguns impostos), os agentes económicos sofreram um forte choque negativo no rendimento disponível (aquilo que sobra uma vez deduzidos os impostos): o que guardam para fins de consumo ou investimento é cada vez menos. Como, por outro lado, as taxas de juro não param de subir (por causa da crise financeira), o seu rendimento vem sendo pressionado também por aí. Não admira que tanto o consumo como o investimento recusem animar-se: não há como consumir ou investir. A consequência é o miserável crescimento económico que vamos tendo.
O outro problema é que o aumento da cobrança fiscal só acontece uma vez. Sendo atingido um grau elevado de eficiência na cobrança não há mais espaço para melhorar. Ora, apesar disto tudo, o défice está longe de resolvido. Porque a verdade é simples: o grande contributo para a melhoria do défice tem vindo do lado da cobrança e não da despesa, onde os melhoramentos são ténues e episódicos. O potencial de crescimento da despesa continua lá. Corremos seriamente o risco de, indo este governo embora, as batatas quentes da Saúde, da Segurança Social e mesmo da Administração Pública passarem para os próximos, apesar dos sacrifícios agora pedidos. Já se percebeu que a única solução é mudar completamente a maneira de prestar aqueles serviços. Mas onde está quem o queira fazer?

