(Publicado no jornal Meia Hora, 20/12/2007)
O ano não acaba bem, pelo menos na frente económica. Ainda esta semana os bancos centrais das principais economias desenvolvidas, numa atitude sem precedentes, injectaram uma extraordinária quantidade de dinheiro no sistema financeiro mundial, na esperança de verem a confiança regressar aos mercados de capitais. Não funcionou grande coisa. Ninguém sabe ainda muito bem qual a exposição das grandes instituições financeiras à crise do financiamento imobiliário. O problema é financeiro na origem, mas toda a gente está à espera do impacto na economia dita “real”.
O mecanismo de contágio é a escassez de crédito para consumo e investimento. Receosos da capacidade dos seus parceiros para satifazerem dívidas (por dependerem de instrumentos financeiros baseados, em última instância, em dívidas eventualmente incobráveis de famílias falidas), os bancos só emprestam uns aos outros mediante taxas de juro mais altas. Estas taxas são então passadas para os investidores e consumidores, que naturalmente abrandam actividade. As previsões vêm aparecendo cada vez piores, sobretudo em economias onde a animação económica esteve muito dependente do imobiliário, como os EUA, a Inglaterra ou a Espanha.
Normalmente, a maneira de evitar uma paragem demasiado abrupta da economia é descer as taxas de juro. Os bancos centrais vêm-no fazendo (menos o europeu, embora se tenha oferecido esta semana para emprestar aos bancos a juros baixos), mas não demasiado, até por não poderem, já que por outro lado a inflação espreita. A inflação parece ter origem na subida do preço do petróleo e dos bens alimentares (cuja colheita este ano parece ter sido bastante má). A economia mundial está, portanto, num dilema clássico para o qual não há uma boa solução. É necessário escolher entre duas más.
Portugal terá dificuldade em escapar, por várias vias: o abrandamento internacional limita as exportações (no nosso maior mercado, a Espanha, há já um colapso do imobiliário) e os juros tolhem o consumo e o investimento. Como, finalmente, o governo tributa por tudo o que é lado, o panorama não se apresenta animador. Para o ano resta, portanto, juntar as mãozinhas e rezar.