(publicado no jornal Meia-Hora, 18/10/2007)
O PSD afinal é um partido de “centro-esquerda”, pelo menos na opinião do seu actual líder. O que não o impede de propor a privatização de várias tarefas do Estado, bem como, nem mais nem menos, do que uma “nova Constituição”. Houve quem se risse: um partido de “centro-esquerda” que privatiza funções do Estado? Não se percebe a graça. O “engenheiro” Sócrates, embora timidamente, lá vai fazendo disso. E muita esquerda, se abandonasse o fetichismo do Estado, também poderia aceitar a ideia.
Seja como for, há duas coisas aqui que não se entendem. Uma é a necessidade de definir o PSD como partido de “centro-esquerda”. Para que serve a definição, a menos que Menezes ache que em Portugal as eleições só se ganham à esquerda? Ele não precisava de definir o PSD como partido de “direita” ou “centro-direita”, mas não conseguirá escapar ao facto de o PSD ser visto como um partido à direita do PS. Este exercício de denominação é inútil e não traz votos. A esquerda (como no velho caso da Coca-Cola) sempre preferirá o produto genuíno, e para muita dela o PS já é um género adulterado, quanto mais o PSD…
Outra coisa que não se entende é a temática constitucional. A última coisa de que um país necessita é brincar às constituições. As constituições fundam os regimes e devem ser estáveis, aceites mesmo por aqueles que as escreveriam de forma diferente. Os momentos constituintes são sempre momentos de conflito, em que as várias partes lutam para definir o equilíbrio estável da comunidade política. Um novo período constituinte significa um novo período de conflito aceso. Uma nova Constituição significa um novo regime. Menezes quer mesmo reabrir o conflito entre os portugueses? Quer mesmo fundar um regime novo? Se quer, convinha que fosse claro sobre a natureza desse regime futuro. Talvez até haja boas razões para um regime novo. Mas seria necessário ter a certeza de que ele substituiria com vantagem o actual. Será que Menezes nos garante isso? Afinal, se ele abrir um período constituinte, toda a gente terá algo a dizer. Provavelmente não passou tudo de uma brincadeira. Só que, a ser assim, então o PSD de Menezes não é para ser levado a sério.


