Arquivo de Outubro, 2007

O novo centro-esquerda

Outubro 19, 2007

(publicado no jornal Meia-Hora, 18/10/2007)

O PSD afinal é um partido de “centro-esquerda”, pelo menos na opinião do seu actual líder. O que não o impede de propor a privatização de várias tarefas do Estado, bem como, nem mais nem menos, do que uma “nova Constituição”. Houve quem se risse: um partido de “centro-esquerda” que privatiza funções do Estado? Não se percebe a graça. O “engenheiro” Sócrates, embora timidamente, lá vai fazendo disso. E muita esquerda, se abandonasse o fetichismo do Estado, também poderia aceitar a ideia.

Seja como for, há duas coisas aqui que não se entendem. Uma é a necessidade de definir o PSD como partido de “centro-esquerda”. Para que serve a definição, a menos que Menezes ache que em Portugal as eleições só se ganham à esquerda? Ele não precisava de definir o PSD como partido de “direita” ou “centro-direita”, mas não conseguirá escapar ao facto de o PSD ser visto como um partido à direita do PS. Este exercício de denominação é inútil e não traz votos. A esquerda (como no velho caso da Coca-Cola) sempre preferirá o produto genuíno, e para muita dela o PS já é um género adulterado, quanto mais o PSD…

Outra coisa que não se entende é a temática constitucional. A última coisa de que um país necessita é brincar às constituições. As constituições fundam os regimes e devem ser estáveis, aceites mesmo por aqueles que as escreveriam de forma diferente. Os momentos constituintes são sempre momentos de conflito, em que as várias partes lutam para definir o equilíbrio estável da comunidade política. Um novo período constituinte significa um novo período de conflito aceso. Uma nova Constituição significa um novo regime. Menezes quer mesmo reabrir o conflito entre os portugueses? Quer mesmo fundar um regime novo? Se quer, convinha que fosse claro sobre a natureza desse regime futuro. Talvez até haja boas razões para um regime novo. Mas seria necessário ter a certeza de que ele substituiria com vantagem o actual. Será que Menezes nos garante isso? Afinal, se ele abrir um período constituinte, toda a gente terá algo a dizer. Provavelmente não passou tudo de uma brincadeira. Só que, a ser assim, então o PSD de Menezes não é para ser levado a sério.

Permanente fascínio

Outubro 18, 2007

 

Como diria Lídia Jorge, o mundo é um lugar de permanente fascínio. Senão vejamos:

A Turquia é a mais recente coqueluche dos amigos dos humilhados e ofendidos. Parece até que a Turquia se dotou, nas últimas eleições, de um “governo moderado”. Ora, é este “governo moderado” que se apresta a lançar-se numa louca aventura militar punitiva de tipo colonial do outro lado da fronteira. E onde, no outro lado da fronteira, quer a Turquia atacar? No Iraque, essa vergonha planetária causada pelo horrendo Bush. E onde precisamente, dentro do Iraque, quer a Turquia atacar? No impropriamente chamado “Curdistão”, a mais funcional das zonas do país, onde vivem os verdadeiros campeões dos humilhados e ofendidos: os curdos. Os curdos, esse povo sem Estado, a quem o horrendo Bush arranjou um proto-Estado. Em suma: os bons atacam os mais maus de todos, mas querem atacar os mais maus de todos atacando os mais bons de todos.

Não está fácil ser um tipo porreiro.

Surprise, surprise

Outubro 18, 2007

E não é que, entrando a Turquia, a UE talvez venha a ter, finalmente, um exército a sério? Uma pequena nota curiosa: trata-se de um país islâmico.

Feuilleton

Outubro 17, 2007

A sombra dos Bonaparte

Outubro 17, 2007

High Plains Drifter

Outubro 16, 2007

High Plains Drifter

A armadilha

Outubro 15, 2007

Uma pessoa lê a Ilíada ou a Odisseia e pergunta-se se faz algum sentido a ideia tradicional de fundar a cultura do Ocidente nos gregos antigos. As virtudes individuais que lá são apreciadas, a relação com os deuses, a ética subjacente, são completamente diferentes das existentes na tradição cristã. Os deuses, por exemplo, são caprichosos, interferem constantemente nos assuntos humanos e nem sempre por boas razões, mudam de lado por motivos insondáveis e valorizam nos humanos as mais estranhas coisas. Daqui resulta um comportamento humano cuja moralidade nada tem que ver com a nossa. A queda e a redenção, por exemplo, na qual se baseiam 80% das grandes obras narrativas do Ocidente e que tantas vidas norteiam, ou a força resultante da humilhação, que inspira tantos dos nossos comportamentos, são ali inconcebíveis. Os Homens são belos, soberbos, justos, injustos, valentes, cobardes, malandros, astutos indiferenciadamente e nessa medida são apreciados. Ulisses, por exemplo, tem momentos de valentia e de cobardia e pelos dois é valorizado.

Por isso, a origem do que somos parece ser mesmo Cristo. A coragem radical de Cristo, a coragem de se deixar humilhar para melhor vencer, de aceitar todas as provações em nome de algo maior, a dignidade absoluta, é o padrão da nossa virtude. Quem não tenda para este tipo de comportamento (mesmo que não o consiga alcançar), facilmente é apodado de canalha.

Mas acima de tudo, Cristo criou a todos nós (os que acreditam e os que não acreditam) uma situação sem saída. Independentemente da fé, Cristo existiu e sofreu. Não sofreu por ele mas por todos nós. Cristo concentrou no seu sofrimento o sofrimento de toda a Humanidade, para assim a redimir e libertar. Ora, sofrer o que ele sofreu por nós todos, convencido de que estava a ganhar, só se pode explicar de duas formas: ou era um imbecil ou tinha razão. Assim nos armadilhou irremediavelmente. E isso é que é fodido.

A famosa questão do regime

Outubro 12, 2007

(Publicado no jornal Meia-Hora, 10/10/2007)

É aquela altura do ano em que o país é acometido de um estranho assomo de republicanismo. Ele é a “ética republicana” para um lado, a “escola republicana” para o outro e o “espírito republicano” ainda para outro. Confesso que não compreendo as expressões, e suspeito que o mesmo acontece com quem as profere. Bem gostava de saber o que é a “ética republicana” ou a “escola republicana”. Talvez tenha que ver com o facto de há noventa e sete anos ter acabado a monarquia em Portugal. Mas a este respeito convém perceber que, na altura, não se tratou apenas de substituir o rei por um presidente. Tratou-se sim de (com isso) implantar uma utopia de emancipação final do Homem (com agá grande). 1910 criou um facto político duradouro: o desaparecimento da monarquia. Mas o resto do programa há muito que se esfumou.

Aos excitados periódicos da República (normalmente de esquerda) vale a pena perguntar: muito francamente, se por hipótese fosse restaurada a monarquia em Portugal, alguém recearia, só por isso, pela liberdade e a democracia? E será que não se lembram que as sociedades preferidas pela esquerda, as nórdicas, são todas (com excepção da Finlândia) monarquias? Mesmo a Inglaterra e a Holanda quase se tornaram socialistas sob a monarquia. Convindo ainda lembrar que os mais horríveis regimes da humanidade (o nazismo e os comunismos soviético e chinês) foram repúblicas. Até em Portugal, dois terços do período republicano foram marcados pela violência e o autoritarismo (a I República e o Estado Novo).

Nada disto quer dizer que valha a pena reinstaurar a monarquia. Por si só, a monarquia também não traria nada de especial. Desde as revoluções liberais dos séculos XVIII e XIX que os monarcas ocidentais ficaram limitados por constituições. As suas velhas capacidades discricionárias foram entregues aos famosos três poderes: o governo, os parlamentos e os juízes. Hoje, onde existem no Ocidente, os reis não passam de símbolos. A querela do regime desapareceu há muito de Portugal. O que, naturalmente, também levanta a questão: então, se desapareceu, porquê comemorar a data? Haverá certamente outros momentos mais importantes para lembrar.

Tão americanos só podiam ser irlandeses

Outubro 12, 2007

Tão ingleses só podiam ser suecos

Outubro 12, 2007