Arquivo de Setembro, 2007
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Setembro 13, 2007E se…
Setembro 11, 2007E se afinal a famosa “aventura iraquiana” (e “afegã”) não tivesse corrido mal… Há seis anos que não há um atentado nos EUA, ao mesmo tempo que se multiplicam por esse mundo fora. Um atentado na Turquia, em Inglaterra ou em Espanha não tem consequências nenhumas. O mesmo não se pode dizer de um atentado nos EUA. Os EUA não conseguiram pôr o regime que queriam no Iraque. Mas em três semanas liquidaram aquele que era suposto ser um dos mais poderosos exércitos do Médio Oriente. Talvez então os americanos não sejam muito bons a “mudar regimes” e a “construir democracias”. Mas ao que parece ainda não têm rival a dar porrada em quem os chateia. E isso, para eles, talvez tenha sido o mais importante. Não é realismo que toda a gente pede hoje em dia? Ora aí está uma consequência bem realista.
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Setembro 11, 2007
Todos temos uma Edite Estrela dentro de nós
Setembro 10, 2007Sobre a selecção nacional de râguebi, para além de lhe desejar a melhor sorte e esperar que leve efectivamente menos de 100 dos All Blacks e ainda faça um ensaiozito, só tenho uma coisa a dizer: porque é que toda a gente fala do “reiguebi”, havendo mesmo alguns (certamente mais familiarizados com a modalidade) que lhe chamam “reibi”? A palavra em português está muito bem achada. É uma óptima aproximação fonética ao original inglês, tudo se devendo àquele acento circunflexo sobre o a, que faz com que deva soar exactamente da mesma maneira. Peço desculpa pela interrupção, mas era o que eu tinha a dizer sobre isto.
A civilização
Setembro 9, 2007Acabo de ver uma peça jornalística relatando o regresso dos McCann a casa. Parece que o aeroporto onde aterraram estava cheio de “populares” à sua espera. Os “populares” e as suas atitudes absurdas, recorde-se, são sempre apresentados pelo bem-pensante português como o óbvio sinal do subdesenvolvimento nacional. Evidentemente, a praga também existe em países desenvolvidos. Alguns dos “populares” locais foram mesmo entrevistados. Um foi ao aeroporto com uma criança ao colo só “para os ver”. Porque não? Que coisa melhor para fazer ao domingo do que levar a criança ao aeroporto ver umas pessoas envolvidas numa história de contornos nebulosos? Outra, tal e qual como uma vulgar “popular” portuguesa, condenava já Kate porque ela “nunca chorou” este tempo todo, uma claríssima prova de culpa. Se juntarmos a isto as palermices de que jornais e televisões locais estão apinhados sobre ofertas de auto-incriminação feitas pela polícia portuguesa e o uso do casal como “bode expiatório” da incompetência da mesma polícia, só podemos chegar a uma conclusão: afinal, o desenvolvimento já chegou a Portugal. E podemos estar orgulhosos por fazermos por inteiro parte da civilização.
Um pouco de história
Setembro 8, 2007
Assim não tem graça
Setembro 7, 2007(Publicado no jornal Meia-Hora, 6/9/2007)
Primeiro foi o PS. Agora foi o “Bloco”. A esquerda parece andar toda a chegar-se à direita. O PS faz “reformas” que outrora não hesitaria em chamar “neoliberais”. O “Bloco” anda muito ordeiro e realista e até já governa a cidade de Lisboa. Claro que há sempre um ou outro acto falhado, do género do apoio de Miguel Portas aos assaltantes da herdade de milho transgénico. Mas são lapsos, que até o próprio Portas se apressou a corrigir. Isto deveria ser motivo de regozijo para todos aqueles que andaram anos a defender uma certa libertação da sociedade e os princípios da democracia liberal. Afinal, o PS já acha que alguma coisa precisa de mudar no nosso “Estado social” e o “Bloco” (todo ele constituído por velhos partidos e grupos anti-democráticos) resignou-se ao prosaísmo do que em tempos chamaria de “democracia burguesa”.
O contraste disto, curiosamente, é o desastre dos partidos de direita. O êxito das ideias vindas da direita conduziu à incapacidade dos seus partidos. É capaz de não ser por acaso. É que à direita já não basta gritar “ó da guarda, vem aí a esquerda!” (e muito menos, “ó da guarda, vem aí o comunismo!”). O PS já não se confunde com gestões económicas calamitosas e o “Bloco” (pelo menos completamente) com o mais absurdo radicalismo. Então, que fazer? Provavelmente, acentuar aquilo que ainda distingue a direita da esquerda. Se não é a democracia e as “reformas” talvez seja uma menor crença no Estado, uma maior crença nos indivíduos, na iniciativa privada, nas famílias ou em associações voluntárias diversas. Uma vez estabelecida esta base, as políticas concretas seriam quase uma derivação natural. Nada disto deveria custar muito. Afinal, os partidos de esquerda são neófitos nos papéis que agora se atribuíram a si mesmos. Este pequeno ajustamento faria bem à direita, naturalmente, mas também à esquerda, que seria obrigada a continuar a actualizar-se, como o fez nos últimos vinte anos. Agora, a direita tal como está é que não tem graça nenhuma.
Da série Já não se fazem músicas assim
Setembro 6, 2007
Now this is life
Setembro 5, 2007No Meia-Hora (grande jornal, hã?) vem a agenda de Marques Mendes nos Açores para hoje, em plena campanha para as directas. Segundo o jornal, a agenda é a seguinte:
- 14.30: Observação de cetáceos
- 19.00: Reunião com autarcas
- 20.30: Jantar com militantes
O interessante nesta agenda é a sua extrema flexibilidade. Repare-se como poderia ser, sem qualquer prejuízo de relevância e significado político, outra a organização. Por exemplo:
- 14.30: Observação de autarcas
- 19.00: Reunião com militantes
- 20.30: Jantar com cetáceos
Ou mesmo:
- 14.30: Observação de militantes
- 19.00: Reunião com cetáceos
- 20.30: Jantar com autarcas
Presumo que seja esta emoção apenas garantida pela vida política que atrai tanta (e tão talentosa) gente para a actividade.
Les beaux esprits…
Setembro 2, 2007Outra coisa que não vale a pena é aquilo de malhar na América. Já não se trata bem de um argumento, de um pensamento, de uma maneira de pensar. Trata-se de um impensado. Vem automaticamente, por instinto, como no cão de Pavlov.
Por exemplo, Daniel Oliveira, o grande paladino da estratégia de “aburguesamento” do “bloco”, não perdeu recentemente a oportunidade de zurzir a América por causa da pena de morte: “um dos piores crimes com que a humanidade convive”, nas suas palavras. Eu também não gosto da pena de morte, mas convém perceber uma coisa sobre a sua aplicação nos EUA. Ela é aplicada num quadro legal tipificado e previsível, e apenas a homicidas (ou cúmplices, como é o caso que o Daniel cita). Antes de um indivíduo ser condenado à morte, é sujeito a procedimentos exaustivos baseados na ideia de que é inocente até a sua culpa ser provada. O processo de prova é complexo, são oferecidas inúmeras garantias e vigora o princípio do “due process”. Em suma, as condições genéricas de um fair trial. Claro que há o erro judicial (aliás, talvez a razão mais forte contra a pena de morte) e várias outras imperfeições, mas a isso nenhum sistema jurídico está imune. Acontece que, quotidianamente, por esse mundo fora, milhares de pessoas são executadas de forma sumária por razões bem menores do que o homicídio (sei lá, o proxenetismo e o tráfico de droga na China, a homossexualidade e o adultério em países islâmicos, isto para não falar de razões políticas). Nunca vejo o Daniel (e restante pessoal) tão excitado como quando se trata de uma execução na América, se acaso mencionam algum desses episódios. Mas pronto, é mesmo assim, não há nada a fazer.
Outro exemplo é Vítor Dias, um grande paladino da estratégia de manutenção do PCP tal como é, que também não perdeu a oportunidade de zurzir na América a propósito de um estudo americano que diz que são 36.5 milhões (ou cerca de 13% da população) os pobres por lá. Claro que há pobres por todo o lado e ninguém se alegra com isso. E eu até me atrevo a sugerir que há menos pobres na América do que na maior parte do mundo. Mas nada disso detém Vítor Dias. Como aliás não detém uma informação interessante que vem no mesmo relatório. Aquele número de pobres é definido a partir de um limiar de pobreza que se cifra em aproximadamente 13.200 dólares anuais por família de duas pessoas. Comparar valores a nível internacional é muito complexo, mas, simplificando imenso, estaremos a falar de qualquer coisa que não andará muito longe dos 1.000 euros, ou 200 contos antigos, por mês. Não invejo um casal que viva só com essa quantia, mas daí a tomar à letra a sua natureza de “pobre” vai um passo grande. Se considerarmos que o mesmo limiar de pobreza colocaria talvez 50% a 60% da população portuguesa abaixo do limiar da pobreza, talvez 20% a 30% da população europeia, e para aí 80% da população da maior parte dos países do mundo; se considerarmos também que a habitação, a alimentação e os combustíveis são mais baratos na América do que na Europa, o quadro ainda se torna mais ambíguo. Claro que os serviços de saúde e educação são mais caros, mas também são cobrados menos impostos para os pagar. Enfim, o Vítor Dias lá pegou na história sem mais considerações. Podia ter sido o Daniel, mas foi o Vítor Dias. Aí está, les beaux esprits…
Podia multiplicar este género de episódios até à exaustão. Mas basta mais um. Ainda na sexta-feira passada vinha no Público a história do cantor de protesto Manu Chao, que vai partir à conquista do mercado americano vendendo-lhe (guess what?) canções de protesto contra Bush e a América. Está muito bem, ele que faça o que quiser. Mas gostava de o ver a gorjear canções de protesto, por hipótese, no Irão. Dá-me a impressão de que lhe diziam logo: “mano… tchau”.