(Publicado no jornal Meia-Hora, 20/9/2007)
Era típico dos pânicos financeiros do século XIX e ainda hoje vai ocorrendo na América Latina. Mas era a última coisa que se esperaria ver em Inglaterra. No entanto, eis que nos últimos dias temos assistido à imagem de clientes fazendo bicha à porta do banco a fim de recuperarem os seus depósitos. Aconteceu apenas com um pequeno banco (o Northern Rock), mas se o Banco de Inglaterra não tivesse lançado uma linha de crédito de salvamento, o pânico poderia ter-se generalizado. A crise tem origem no mercado subprime dos EUA (de empréstimo hipotecário a clientes de risco), mas mostra como o empréstimo dito “irresponsável” (ao contrário do que se ouviu dizer nos primeiros tempos da crise) não é uma especialidade americana. O Northern Rock, por exemplo, insere-se numa espécie de subprime europeu, sem a clareza do original americano.
É escusado explicar aqui as complexas operações que permitem o funcionamento destas instituições, mas vale a pena perceber que os bancos portugueses não estão imunes a nada disto. É verdade que, tanto quanto se sabe, não utilizam os mesmos instrumentos financeiros do Northern Rock e outros, estando por isso um pouco mais protegidos. Só que também eles passam o tempo a fazer crédito de risco. Sobretudo para compra de casa, mas também para consumo corrente. O resultado é um endividamento extraordinariamente gravoso para muitas famílias.
O que está a passar-se é uma crise de liquidez, coisa que tem como consequência o encarecimento do dinheiro (ou seja, a subida das taxas de juro). Os bancos centrais bem tentam contrariar, injectando liquidez, mantendo as taxas centrais em baixo, salvando bancos comerciais. Mas mesmo assim as taxas de juro vão subindo, por via das margens nos empréstimos interbancários, como punição pelas facilidades creditícias que as taxas baixas permitiram durante estes anos. E quando elas começarem a pesar cada vez mais nos orçamentos sobreendividados dos portugueses, as consequências podem não ser nada bonitas.