A presunção inventada

Vasco, tu és um tipo, digamos, assim um pouco a dar para o chato. Desde há uns anos a esta parte que, de vez em quando, te lembras de implicar comigo. Mas é como dizem os espanhóis, I don’t give a shit.

Agora, sobre este caso, sempre digo mais qualquer coisa, até porque aproveito para esclarecer um ou outro ponto.

Começo por apreciar o teu artifício retórico de comparares o meu artigo com o de José António Saraiva, o qual consideras “nojento”. É verdade que não dizes que o meu o seja, mas a comparação está feita. Depois, aprecio também que, num texto sobre presunção de inocência, não me confiras qualquer presunção de inocência sobre aquilo que acreditas que eu quis fazer. Também não é grave, mas é algo que me permite acrescentar o seguinte:

Presumo que presumas que não sei o que aconteceu à pobre da Madeleine McCann. As únicas coisas que sei sobre o caso são, por um lado, a campanha mediática montada pelos pais para encontrar a filha e, por outro, as suspeitas da Polícia Judiciária sobre o possível envolvimento deles na morte da criança. Ora, isto significa que não tenho qualquer dificuldade em considerá-los presumivelmente inocentes. Mas significa também que não posso ignorar as suspeitas da polícia. Apesar de tudo, atribuo uma certa credibilidade à polícia portuguesa. E custa-me a crer que seja leviana ao ponto de apontar apressadamente para uns culpados de ocasião. Porque presunção de inocência não significa inocência efectiva. E uma coisa é presumir que eu (aqui em Lisboa) ou tu (aí em Nova Iorque) estejamos inocentes neste caso, outra é presumir que estejam inocentes pessoas que a Polícia Judiciária suspeita não estarem inocentes. A presunção de inocência é uma coisa sem dúvida muito linda, mas nenhuma investigação pode decorrer baseando-se integralmente nela. A presunção de inocência serve para que quem investigue não deva facilitar e deva, portanto, acumular indícios ou provas suficientes permitindo incriminar para além de uma dúvida razoável. Claramente, não é o caso do casal McCann, sobre cuja culpa se podem levantar ainda muitas dúvidas razoáveis. Mas isto não elimina o facto de a Polícia Judiciária achar que tem indícios fortes dessa culpa e, se o acha, dever orientar a investigação nesse sentido.

O meu artigo era sobre aquele que é o aspecto mais interessante do caso, partindo da suspeita da polícia: o da inverosimilhança. Porque parece de facto inverosímil que pessoas culpadas façam o estardalhaço público que o casal McCann fez. É esta a pergunta que está na minha cabeça, e é muito provavelmente a que está na cabeça de toda a gente. Será possível? Porquê? Para quê? O meu artigo era sobre uma ideia simples: a de que inverosimilhança não é igual a impossibilidade. Ainda o mês passado se descobriu o caso de uma mãe francesa que matou quatro filhos à nascença e os manteve guardados durante anos na sua bela casa rústica de província. É inverosímil? É incrível? É. Mas verdadeiro. E todos nós nos lembraremos de uns outros quantos casos identicamente incríveis. O interessante no caso McCann é como, a confirmarem-se as suspeitas da polícia, a máxima exposição corresponde à máxima ocultação. É horrível e monstruoso (se verdadeiro). Mas é aqui que entra a longa história da monstruosidade humana.

Eu não quis culpar o casal McCann nas páginas de um jornal de distribuição gratuita. Quis apenas, muito inocentemente (se me permites a graça), pensar como seria possível que fossem culpados. Era só isso. Mas a má vontade consegue realmente pôr as coisas mais horríveis na cabeça dos outros.

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