(Publicado no jornal Meia-Hora, 13/9/2007)
A confirmarem-se as suspeitas da Polícia Judiciária de que terá sido o casal McCann a matar a filha, estamos perante uma daquelas histórias que nos fazem duvidar da bondade da natureza humana. Não a morte da criança, que neste caso se deveria a um acidente, mas a parafernália mediática montada a seguir. Apenas criaturas monstruosas seriam capazes de, sabendo da sua própria culpa, manipular a opinião pública mundial desta forma quase pornográfica.
Ninguém quer crer que seja possível. Mas talvez valha a pena lembrar aqui a história recente do escritor polaco Krystian Bala, que não hesitou em passar para um livro o relato do assassinato por si cometido sobre um homem que foi amante da sua mulher. Bala parece ter acreditado que a sua melhor defesa seria tornar inverosímil a hipótese da sua culpa, usando para isso a exposição pública. De facto, quem acreditaria que o autor de um homícido iria relatá-lo em pormenor num livro que vendeu milhões? E quem acredita que os autores da morte de uma criança se exponham da maneira que os McCann escolheram fazer?
A verdade é que já se viu de tudo. Mas são estas coisas que em vez de nos fazerem descrer da natureza humana antes deveriam reforçar a nossa crença nela. O cálculo, nos dois casos (na hipótese de os McCann serem efectivamente culpados, o que ainda está longe de provado), assentaria na ideia de que ninguém pode ser tão monstruosamente frio ao ponto de escolher confrontar-se diariamente ao interrogatório público. No fundo, os monstros acreditam que a essencial bondade do ser humano não concebe tal coisa. Mas há algo em que falham. É que muitos de nós já tivemos pensamentos desprezíveis. O que nunca fizemos foi passá-los à prática. A diferença não está em conceber o horror. Está em praticá-lo. É neste ponto de contradição essencial que a monstruosidade se afirma e, consequentemente, se incrimina. A maior parte das pessoas podem não ser más. Mas já imaginaram sê-lo. Só que nunca foram.